Simples e de rápida recuperação, a cirurgia íntima é uma opção para mulheres que sofrem com a aparência da vulva

Responda sem pensar nem conferir: qual o formato e tamanho dos seus órgãos genitais? Essa parte da anatomia nas mulheres fica normalmente escondida pela calcinha ou pelo biquíni, mas ganha cada vez mais atenção nas mesas de cirurgia. Seja para se soltar mais na cama ou para poder usar uma roupa justa sem se sentir desconfortável, muitas mulheres estão recorrendo à cirurgia plástica para remodelar ou corrigir imperfeições na região pubiana.

Vergonha é a principal motivação das mulheres para realizar a cirurgia íntima
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Vergonha é a principal motivação das mulheres para realizar a cirurgia íntima
As queixas femininas mais comuns dizem respeito ao tamanho dos pequenos ou grandes lábios vaginais, escurecimento da mucosa e muito volume do monte pubiano. O incômodo pode começar já na adolescência, época em que o carrossel hormonal deixa o humor mais instável e a autoestima na corda bamba. A cirurgia íntima pode ser feita desde que a jovem já tenha o corpo amadurecido. “São adolescentes que frequentemente não tiveram relações sexuais ainda e que têm muita vergonha de se expor no banheiro do clube ou diante do namorado”, diz Luiz Eduardo Abla, professor de cirurgia plástica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Mas não há limites de idade para ajustes na região. “Muitas vezes, mulheres casadas e com filhos aproveitam uma viagem de trabalho do marido para fazer a operação e contam para ele na volta”, diz o cirurgião plástico André Colaneri. “No geral, é uma paciente que tem muita vergonha. Já operei mulheres que nunca tinham ido ao ginecologista por acharem sua vagina muito estranha”, afirma Colaneri. “Só 5% das mulheres que me procuram para fazer a cirurgia íntima chegam por problemas fisiológicos. 95% dos casos são por razões estéticas.”

As cirurgias nos pequenos e grandes lábios são chamadas de ninfoplastia ou labioplastia. “Os nomes vêm e vão de acordo com a moda, mas é basicamente uma plástica da vulva, feita para corrigir alguma coisa que incomoda na região”, diz o cirurgião plástico Milton Nahom. São geralmente feitas por cirurgiões plásticos, na área externa dos genitais. Outros procedimentos, que visam à reparação da funcionalidade da vagina, como a perinoplastia, que melhora a flacidez dos músculos do períneo, geralmente são feitos por cirurgiões obstetras ou ginecologistas.

O cirurgião plástico e colunista do iG Alexandre Senra lembra que a cirurgia íntima, embora seja rápida e simples, tem riscos e contraindicações como qualquer outra - pressão alta e obesidade, por exemplo, aumentam os riscos cirúrgicos. “O primeiro passo é a avaliação e exames médicos. Estando tudo ok, é uma cirurgia de repercussão pequena, que dura cerca de 40 minutos, geralmente com anestesia local e sedação. Alguns médicos preferem usar anestesia peridural”, diz Senra. Cerca de 80% das pacientes de cirurgia íntima de Senra aproveitam para fazê-la quando vão fazer outra intervenção.

A recuperação é rápida. “Todos esses procedimentos são feitos em hospitais, ou clínicas com infraestrutura à disposição”, afirma Abla. A paciente volta para casa no mesmo dia e pode retornar a atividades regulares cerca de dois dias depois. É recomendado evitar atividades físicas intensas por cerca de duas a três semanas e relações sexuais por um mês.

Devo fazer?
É difícil definir a estética “normal” da vagina. Assim como outras partes do corpo de um indivíduo, o aspecto da região genital também varia. “A paciente que procura a ninfoplastia chega incomodada. Se ela tem uma vida normal apesar das queixas, talvez a cirurgia não seja indicada. Mas se ela diz ‘doutor, sexo oral não existe na minha vida porque eu tenho vergonha’, então é hora de operar”, afirma Alexandre Senra. O cirurgião plástico André Colaneri concorda. Para ele, a necessidade de realizar a cirurgia tem muito mais a ver com o bem-estar psicológico da mulher do que com o formato dos lábios vaginais ou do tamanho do monte de Vênus. Quando o médico percebe que a paciente está buscando a solução de problemas no relacionamento ou “descontando” mágoas na cirurgia, é orientada a não fazê-la. “Queixas muito exageradas podem indicar outro problema, e o cirurgião precisa submeter a paciente a essa análise. Muitas vezes a paciente tem expectativas irreais, não pensa nas cicatrizes. Acontecem muitas desistências no meio do processo”, diz Abla.

Veja como cada parte da região pode ser modificada pela cirurgia íntima.

Pequenos lábios
“Geralmente, a queixa mais frequente diz respeito ao excesso dos pequenos lábios”, diz Abla. Os pequenos lábios costumam ter uma posição anatômica e ficam naturalmente um pouco para fora dos grandes lábios. Se houver muito excesso de pele, os pequenos lábios podem invaginar (“empurrados” para dentro da vagina com o movimento da penetração) durante a relação sexual e causar dor. Na minoria dos casos, o excesso de pele pode acumular umidade, causando candidíase recorrente e facilitando a proliferação de fungos e infecções ginecológicas. Ainda assim, a maior parte das pacientes opera por questões estéticas. “Às vezes apenas um dos lados está hipertrofiado, às vezes os dois. Essas diferenças de tamanho e forma podem incomodar a mulher”, diz Milton Nahom. O cirurgião reduz a borda dos pequenos lábios tornando-as menores e mais proporcionais ao tamanho dos grandes lábios, além de corrigir a simetria se for necessário.

Grandes lábios
No caso deles serem muito grandes, é feita uma lipoaspiração para reduzir seu volume. Quando são muito pequenos ou flácidos, recorre-se a preenchimentos. “Uso principalmente gordura da própria paciente”, diz Abla. “É possível optar pelo PMMA (polimetilmetacrilato), mas não uso para reduzir o risco de inflamação local, úlceras e feridas na região, de difícil solução total”. No preenchimento feito com gordura, a reabsorção é de cerca de 40% a 60%, de acordo com Abla. De acordo com André Colaneri, se a gordura for bem centrifugada, fica mais densa e a reabsorção pelo corpo é menor, com resultados mais duradouros. Como os procedimentos são numa camada profunda abaixo da pele, não afetam a sensibilidade.

Monte de Vênus
Trata-se de uma lipoaspiração no monte pubiano, quando ele acumula gordura de forma desproporcional, eventualmente com correções na flacidez da pele - em casos de emagrecimento muito rápido, por exemplo. “A paciente que emagreceu demais pode ficar com esse excesso nos pequenos lábios. O monte de Vênus cai todo, com flacidez generalizada. É preciso tirar uma fatia de pele do monte pubiano e puxar a região para cima. Isso melhora a flacidez”, diz Abla. De acordo com pacientes de Alexandre Senra, “as relações sexuais ficaram mais fáceis depois dessa lipo”. Essa plástica é procurada por homens também. Com a lipoaspiração, o pênis fica mais evidente e dá a impressão de ser maior.

Clareamento
Uma das reclamações que chega aos consultórios é da mucosa vaginal aparentar ser muito escura. A pigmentação depende de fatores genéticos ou circunstanciais. Gravidez e depilação definitiva, por exemplo, podem escurecê-las. “Uma coloração mais escura pode desagradar as pessoas; em certas situações é preciso discutir com o paciente o que é a natureza dela. Existem limites”, afirma Milton Nahom. “O uso de substâncias tem que ser muito cuidadoso; pode causar irritações, queimaduras e causar efeito contrário, escurecendo muito mais”, alerta Abla. Há cremes clareadores, mas a eficácia deles não é um consenso entre os médicos.

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