Um bate-papo franco com a especialista Débora Pádua, autora do novo livro “Prazer em Conhecer”

As mais jovens experimentam menos por medo do julgamento do namorado
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“Você acha que sabe tudo sobre sexo?” É com essa pergunta que o novo livro “Prazer em Conhecer” (Editora Alaúde) provoca o leitor logo de cara. Em 144 páginas, a especialista em uroginecologia e professora de sexualidade Débora Pádua fala sobre temas polêmicos e dúvidas que ainda perturbam homens e mulheres. Na entrevista que segue, a expert responde questões que persistem por décadas.

Delas: Por que ainda é tão difícil para a mulher assumir que se masturba? Para elas, falar sobre o assunto pode ser constrangedor até mesmo entre amigas. Os homens, por outro lado, costumam fazer piadas sobre o tema.
Débora Pádua: A mulher fica imaginando o que o homem vai pensar dela, principalmente as mais novas. Esse comportamento é muito influenciado pela maneira como ela foi criada e pela formação sobre sexo. Eu tive uma paciente de 76 anos que me disse: “Você tirou um peso muito grande das minhas costas. Eu fiz isso por toda a vida e me sentia muito culpada”. No homem tudo é externo na sexualidade, já na mulher é tudo para dentro.

Delas: Você diz que o clitóris é pouco conhecido por homens e mulheres. Como reverter isso?
Débora Pádua:
Por incrível que pareça, tem mulher que não sabe o que é clitóris, a localização dele e muito menos a dimensão, qual o tamanho real. Há quem ache que é só aquela pontinha que a gente consegue ver, mas ele é muito maior. É preciso tocá-lo. Eu aconselho a olhar a vagina no espelhinho, como qualquer outra parte do corpo. Alguém passa dois meses sem olhar para a própria boca?

Delas: O tempo passa, mas as dúvidas persistem: o ponto G e a ejaculação feminina ainda são questões que geram dúvidas. O que definitivamente devemos pensar sobre esses dois assuntos?
Débora Pádua:
Inúmeras pesquisas defendem as duas posições, algumas juram que o ponto G não existe, outras afirmam que ele existe sim. Contudo, o que posso afirmar vem dos relatos que eu ouço das minhas alunas. O ponto G provavelmente existe. Ele é simplesmente um lugar dentro do canal vaginal um pouco mais sensível, mais enervado, e por isso provoca mais prazer quando tocado. Mas isso não significa que todas as mulheres vão reagir da mesma maneira ou que são defeituosas por não tê-lo ou percebê-lo. Já sobre a ejaculação feminina, de cada 20 mulheres presentes nas minhas aulas, pelo menos duas ou três delas já tiveram, daqueles que chegam a molhar a cama. Quando elas falam da ejaculação, o relato é muito diferente de um orgasmo vaginal ou clitoriano, a sensação é que vai sair alguma coisa, uma expulsão. Não é uma sensação de contração. Mas, claro, ainda há muita controvérsia sobre o assunto.

Pesquisas divergem sobre muitos temas, mas Débora Pádua apresenta respostas diretas com base em aulas e consultas
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Pesquisas divergem sobre muitos temas, mas Débora Pádua apresenta respostas diretas com base em aulas e consultas
Delas: O sexo oral ainda suscita muitas dúvidas na cabeça de ambos os sexos. Sob a influência dos filmes eróticos, homens usam a língua de maneira rápida e pouco estimulante. Já as mulheres muitas vezes não relaxam e são mecânicas na hora de fazê-lo.
Débora Pádua:
Em primeiro lugar, a pessoa tem que estar com vontade. Por exemplo, um homem que se incomoda com pelos pubianos não vai fazer sexo oral com vontade em uma mulher que não se depila. Já a mulher, quando ela vai fazer nele com a expectativa de ter uma performance de filme pornô, tende a dar errado – aquela coisa de colocar o pênis imenso todo na boca. Tem mulher que não gosta de olhar para o parceiro na hora que está fazendo o sexo oral, mas é bom olhar porque você percebe as reações, se ele está gostando ou não. A brincadeirinha de colocar mel ou leite condensado estimula o casal, o doce vai escorrendo e os movimentos são inesperados, explora movimentos diferentes.

Delas: E possível ter orgasmo apenas com o sexo anal ou a mulher tem também que estimular o clitóris quando está sendo penetrada no ânus?
Débora Pádua:
É possível ter orgasmo anal sim, segundo relatos. Mas na literatura médica ainda não há nada sobre isso. A maioria dos especialistas, inclusive, nega que exista. Contudo, uma menor parcela de especialistas afirma que é possível sim ter um orgasmo anal – alguns falam até em orgasmo mamilar, ou seja, só com estímulos nos mamilos. Mas não tenha dúvidas que com o estímulo clitoriano fica muito mais fácil.

Delas: E com relação aos homens, quais preocupações estão no topo da lista deles?
Débora Pádua:
Eles querem saber se existe uma forma de perceber que a mulher está tendo um orgasmo. Eu digo que até existe, mas na hora do sexo são tantos detalhes que você não vai conseguir dar atenção. Porque a mulher no orgasmo fica mais ofegante e tem contrações da musculatura perineal. Mas se você quer saber mesmo se ela está tendo prazer, preste atenção nela já nos primeiros minutos da relação. A mulher consegue ter intensidade durante todo o tempo, não é como o homem que tem um pico máximo com a ejaculação. Eles sempre ficam esperado que ela solte aquele “ahaaa” no final.
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“Prazer em Conhecer”, Editora Alaúde, 144 páginas

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