Relacionamento afetivo dentro do local de trabalho é quase inevitável, mas é necessário ter um pouco de cautela

O desafio é manter vida pessoal e profissional
separadas, quer a relação dê certo, quer não
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O desafio é manter vida pessoal e profissional separadas, quer a relação dê certo, quer não
A coordenadora escolar Paula *, 34 anos, passou meses angustiantes quando percebeu que estava apaixonada pelo diretor da escola em que ela trabalhava. O problema? Lá não é permitido que funcionários tenham qualquer tipo de envolvimento amoroso. “De repente aconteceu. Ele era muito atencioso comigo e, quando percebi, já não podia evitar meus sentimentos. E quase pirei. Por não saber se seria correspondida ou se perderia meu emprego”, conta ela.

Ter algum envolvimento mais íntimo com chefes e pessoas que ocupam cargos superiores é muito comum. “Há certa atração pelo poder, pelo que parece inatingível”, explica a psicóloga Manuela Mendes. Além disso, o tempo que se passa no local de trabalho também facilita maior intimidade nos relacionamentos profissionais. “É comum que as pessoas se relacionem no trabalho, já que muitas passam mais tempo na empresa do que em casa, com família e amigos”, conta Camila Mariano, gerente de Atendimento da Catho Online.

A proibição dada pelas normas do colégio em que Paula trabalhava não impediu que ela conquistasse o chefe, mas atrapalhou os rumos da sua profissão. “Ele percebeu que eu dava em cima dele. Um dia, quando terminei o expediente, recebi uma mensagem dele no celular me convidando para jantar. Começamos a sair e não paramos mais. Fiquei preocupada que descobrissem e conseguimos manter o caso em segredo por 8 meses, até o dia em que ele resolveu sair da escola”, conta ela. Depois disso, não demorou muito para que alguém descobrisse. “Enquanto era segredo, eu vivia com medo, desconfiava que falavam de mim pelos cantos, que fofocavam. Estava sempre muito tensa e apreensiva”, relembra a coordenadora.

Quando a empresa não aceita esse tipo de relacionamento, há sempre muito medo e tensão. Natural, já que o emprego de quem se apaixona pode estar em risco. Alguns locais mantêm essa regra no estatuto por acharem que há uma queda no rendimento e pode ter favorecimentos especiais entre os amantes. Mas é nos corredores e nas conversas entre os funcionários que se percebe algumas mudanças. “O namoro em si não significa que terá uma redução de produtividade, mas em alguns casos pode causar mais murmúrios e curiosidade do que se deveria, ou seja, as pessoas perdem mais tempo para falar do assunto porque é proibido. Então o ideal é que se tenha uma boa orientação sobre o assunto e líderes aptos para lidar com a situação”, explica Camila.

Opção difícil
O chefe de Paula resolveu mudar de emprego para poder levar o relacionamento adiante, casar e não atrapalhar a vida pessoal. Uma escolha importante e difícil, mas que só trouxe ganhos para o casal. “Mudar de área, desde que elas não sejam correlatas ou dependentes uma da outra, ou mudar de emprego, é uma boa saída. Isso evitará que o namoro contamine a vida profissional do casal e vice-versa, ou seja, que o casal leve os problemas do trabalho para o namoro”, analisa a gerente de atendimento da Catho Online.

“Pedi demissão depois do ‘não’”
Mas nem sempre atitudes como essa são possíveis. Ou não há outro emprego em vista (nem para ele e nem para ela) ou a paixão avassaladora não é correspondida. Rosana Spadin, 41 anos, passou meses em claro, sem nem conseguir dormir, depois que resolveu se abrir para o chefe. A reação dele foi catastrófica para a vida profissional e pessoal. “Ele era poderoso dentro da empresa. E isso me atraía. Sempre me lançava olhares penetrantes. Achei que a gente podia engatar um romance ou ao menos algumas saidinhas esporádicas. Mas me surpreendi. Escrevi um email e recebi um não bem claro como resposta. Pedi demissão na hora. Não consegui lidar com essa ‘não conquista’ e com a vergonha de ter que encontrá-lo todos os dias”, conta ela.

Se a relação não é correspondida, é preciso pensar seriamente nos rumos que irá tomar depois que o jogo for aberto. Permanecer ou não no emprego depende muito da intimidade que se tem com o chefe e da tranquilidade para conviver com isso. “Há pessoas que sabem lidar melhor com a situação e contornar sem prejuízos, mas se não houver maturidade o suficiente, os riscos são grandes. O importante é que tenha em mente algo muito claro: o lado pessoal não deverá prejudicar os resultados como profissional. A partir daí, a decisão de se declarar ou não e mudar de emprego ou não deverá ser tomada”, alerta Camila.

Juliana*, 32 anos, trabalha como secretária em um escritório grande de advocacia. E foi pelo advogado mais poderoso que ela caiu de amores. Mas a história não teve um final feliz. “Eu sabia que ele não iria ficar comigo, mas eu precisava tentar. Saímos para um café e me declarei sem papas na língua. Ele pediu a conta e levantou, ficou indignado. Eu pensei em mudar de emprego, mas mantive a cabeça em pé e permaneci lá. Isso acontece e eu não deixei que atrapalhasse a minha vida pessoal”, conta ela.

Se o todo poderoso não quer saber de você e não há previsão de mudança de emprego, seja firme e segura. “Não force a barra tentando uma reaproximação. E quando for cobrada por ele, não pense que ele a está punindo. É só o papel dele de chefe”, explica a consultora de estilo Ana Vaz. Mas se mesmo assim a situação ainda é insuportável e conviver com ele é arrasador, é melhor mexer os pauzinhos. “Tente mudar de área. Fique atenta às novas oportunidades dentro da própria empresa”, sugere a consultora.

Em locais em que a relação é permitida e você pode pular de cabeça no novo amor, não se esqueça que é preciso ter muito cuidado. “O poder é perigoso. Ele traz status e muitas pessoas gostam de demonstrar alguma superioridade quando se aproximam dele. É necessário discernimento. Você não terá mais poder apenas por namorar o chefe. E não deve se beneficiar disso. Discrição é a palavra chave”, garante a psicóloga.

Dicas
Por isso, cuidado com as atitudes do casal dentro do local de trabalho. Nada de beijinhos, abraços e apelidinhos típicos de namorados correndo pelos corredores. Camila Mariano, gerente de Atendimento da Catho Online, separou algumas dicas para você não correr o risco de perder o emprego ou afundar a relação, caso o namoro aconteça.

- Por mais que seja um casal com um ótimo relacionamento (entre si e seus colegas de trabalho), é preciso lembrar-se de que a empresa não é o lugar adequado para namorar, ou seja, abraços, beijos e juras de amor devem ocorrer somente fora da empresa. Isso fará com que a discrição seja mantida e tanto os chefes como os colegas de trabalho respeitarão a situação e continuarão a confiar na qualidade do trabalho do casal.

- É muito importante evitar o uso de ferramentas da empresa (e-mail, MSN, telefone) para falar de assuntos pessoais – e menos ainda de assuntos que abordem a intimidade do casal. Isso pode ser pego por alguém da empresa e a situação tem tudo para se tornar constrangedora.

- Vale ressaltar que o contato com os colegas de trabalho (para almoços, happy hours) e outras atividades deve ser mantido, ou seja, o casal não deve se isolar do restante do grupo, pois o trabalho em equipe e o relacionamento interpessoal é muito importante para os profissionais que querem se desenvolver na empresa.

- Manter o bom senso e discrição é fundamental, mas não é necessário tentar esconder das pessoas um relacionamento que já é duradouro. Isso evita que pessoas fofoqueiras fiquem investigando e comentando o assunto.

- Problemas no relacionamento devem ser discutidos em casa. Assim como o ambiente de trabalho não foi feito para namorar, também não foi feito para discutir a relação ou resolver problemas do namoro.

- Namorar com o chefe é um motivo a mais para manter sua credibilidade no trabalho, buscando cumprir com obrigações e resultados, a fim de evitar comentários relacionados ao protecionismo. Então chegue no horário, cumpra com as atividades, coopere com as pessoas. E quem é chefe deve cobrar esta postura de seu companheiro, pois caso contrário terá problemas com o restante da equipe, que duvidará de sua liderança e imparcialidade.

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