Três craques no assunto, com diferentes pontos de vista, falam sobre sexo, amor e relacionamentos

Muitos ingredientes contribuem para criar uma relação satisfatória, mas eles mudam de acordo com cada casal
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Muitos ingredientes contribuem para criar uma relação satisfatória, mas eles mudam de acordo com cada casal
Você é do tipo que busca respostas prontas para as perguntas mais íntimas? Tudo bem. Essa é uma forma de tentar aliviar a ansiedade e vislumbrar caminhos para uma vida mais feliz. Contudo, com o passar dos anos, a experiência traz uma certeza: não existem fórmulas nem respostas absolutas para questões sobre amor e troca sexual. As pessoas são diferentes, as situações também, e o conceito de certo e errado vai além do previsível. Por tudo isso, convidamos três craques em relacionamentos amorosos para um bate-papo franco; eles apontam possíveis direções e fazem pensar.

Convidados: Aílton Amélio é psicólogo especialista em relacionamentos amorosos e assina o bem-sucedido “O Mapa do Amor”, entre outros. Regina Navarro Lins é psicanalista, pesquisadora e escritora. É autora do best-seller “A Cama na Varanda” e assina coluna quinzenal no Delas; Beatriz Helena Paranhos Cardella é psicóloga, psicoterapeuta e autora do livro “Laços e Nós: Amor e Intimidade nas Relações Humanas”.


iG: Como será o casamento no futuro?

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"O casamento vai ser personalizado, teremos vários modelos diferentes", diz Ailton

Aílton: Cada dupla terá opção de montar seu próprio casamento sem fórmulas, e isso pode significar morar em casas separadas ou não, participar menos ou mais da vida do parceiro, além de outras coisas desse tipo - antes era um modelo rígido de marido provedor e mulher rainha do lar. Quanto mais o casal se adaptar, melhor. É como sapato: feito sob medida fica mais confortável.

Regina: É bem possível que se tenha um parceiro predileto para o sexo, outro para viajar, outro para a vida cultural. No momento, somos regidos pelo mito do amor romântico. Esse tipo de amor, calcado na idealização do parceiro, prega a fusão entre os amantes e a ideia de que duas pessoas se completam. Estamos assistindo a uma profunda transformação das mentalidades. Há uma busca pela individualidade. A sede de novas experiências, do desconhecido e do novo é maior do que nunca. A fusão romântica propõe o oposto disso, portanto, começa a deixar de ser atraente. Ao sair de cena, o amor romântico leva com ele a exigência de exclusividade. Acredito que, daqui a algumas décadas, menos pessoas estarão dispostas a se fechar numa relação a dois e se tornará comum ter relações estáveis com várias pessoas ao mesmo tempo, escolhendo-as pelas afinidades. A ideia de que um parceiro único deva satisfazer todos os aspectos da vida pode se tornar coisa do passado.

Beatriz: À medida que as pessoas se tornam mais livres, as escolhas refletem relações íntimas e de melhor qualidade. Acho que as relações estão muitos instáveis, os vínculos também, mas, por outro lado, as pessoas estão focadas em melhorar a qualidade dos relacionamentos. Hoje, os homens são mais presentes na vida doméstica e mulheres vão ao mercado de trabalho. A relação amorosa é fruto de trabalho, aprendizado, tempo, paciência e convívio, isso tudo para se alcançar a intimidade.


iG: É possível reatar com o parceiro e viver feliz após perdoar uma traição?

Aílton: Reatar após a traição é uma das coisas mais difíceis no relacionamento, mas muitos sobrevivem. Perdoar ou não vai depender de um monte de coisas: se foi só sexo, com quem foi, o que a pessoa fez depois: contou ou foi descoberta? Quem traiu tem que entender que o outro está inseguro e precisa colocar-se à disposição para deixar o traído mais seguro, por exemplo: dizer aonde vai e fornecer mais carinho. O problema da traição não está em perdoar ou não, mas na desconfiança que isso tende a provocar, talvez para sempre.

Regina:
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Regina: "A única coisa que importa numa relação é a própria relação, os dois estarem juntos porque gostam da companhia um do outro e fazerem sexo porque sentem prazer"
Regina: Em primeiro lugar, penso ser inadequada a palavra “traição” para se referir a uma relação extraconjugal. Traição me parece algo muito sério. E a ideia de perdão por conta do sexo fora do casamento me causa arrepios porque associo imediatamente à ideia de pecado e culpa. É importante refletirmos sobre esses valores para que as mentalidades mudem e as pessoas possam viver de forma mais satisfatória. De uma maneira geral, numa relação estável as cobranças de “fidelidade” são constantes e é natural sua aceitação. O medo de ficar sozinho é tanto que é difícil encontrar quem reivindique privacidade e tenha maturidade emocional para saber que, se tiver um episódio extraconjugal, isso não diz respeito ao parceiro.

Beatriz: O vínculo de confiança fica abalado. E restaurar é árduo e o caminho é longo, mesmo sendo possível. Eu conheço histórias de pessoas que não conseguiram reatar nem superar, e pessoas que conseguiram e iniciaram uma nova jornada. Perdão é algo muito difícil de alcançar na experiência humana. Não é só dizer "te perdôo”. A pessoa traída precisa passar por um luto, viver sua tristeza, sua decepção, e até seu ódio. É preciso uma série de experiências para poder ultrapassar a mágoa, o sofrimento. E precisa se perdoar também, isso porque a pessoa traída tende a se culpar por ter retomado a relação. Mas com amor é possível, ele transcende qualquer coisa.

iG: Os homens têm mais dificuldade em assumir compromissos amorosos?

Aílton: Isso é o que se dizem por aí, mas eu ainda hesito em aceitar ou rejeitar. Em linhas gerais, as mulheres têm essa sensação porque muitos homens só querem sexo, e elas acabam entrando na onda pelo envolvimento, mas no fundo querem compromisso. Também pode acontecer da mulher escolher um homem “muito qualificado” ou “supervalorizado”, do tipo que não vai assumi-la. Mas, no fundo, os homens se apaixonam tanto quanto as mulheres. Não tenho essa impressão de que eles não querem compromisso.

Regina: Na vida adulta os homens escondem a necessidade que têm das mulheres, mostrando-se auto-suficientes e desprezando-as. Convencem-se de que elas é que precisam deles, da proteção. Quando o homem se sente atraído por uma mulher, dois sentimentos contraditórios o assaltam: por um lado, o desejo de intimidade, de aprofundar a relação, e por outro, o temor de se ver diante do seu próprio desamparo e do desejo de ser cuidado por uma mulher. Talvez isso explique por que tantos homens que resistem ao casamento, optando por uma vida livre, em um determinado momento casam-se e tornam-se submissos, dependentes e dominados pela mulher. As causas desse comportamento podem ser encontradas nas exigências que o sistema patriarcal faz ao menino para que ele seja considerado macho. O vínculo dele com a mãe é intenso, mas deve ser rompido precocemente para não ser chamado de “filhinho da mamãe”. O desejo de ser cuidado, acalentado, dependente, é recalcado. Perseguir o ideal masculino gera conflitos e tensões, tornando imprescindível usar uma máscara de onipotência e independência absoluta. Entretanto, o sistema patriarcal, felizmente, começou a desmoronar. A fronteira entre o masculino e o feminino está se dissolvendo. Isso é ótimo, e uma pré-condição para uma sociedade de parceria entre homens e mulheres. Afinal, autonomia implica não se submeter às exigências sociais, de modo a rejeitar características da própria personalidade consideradas femininas pela nossa cultura. “A mulher que sente urgência de casar e o homem que evita o casamento (e vice-versa) mostram que ainda precisam crescer para estabelecer uma relação profunda.

Beatriz: Muitas vezes, o homem acaba adiando o casamento por medo de responsabilidades. Por outro lado, a mulher pode se sentir incompleta por não estar casada - ela atribui sua felicidade ao outro. São resquícios da educação de pais e avós, num contexto no qual o homem era o provedor e a mulher valorizada por ser mãe e esposa. Pode acontecer de uma mulher ou homem estarem profundamente carentes afetivamente e buscarem um casamento como forma de escapar da solidão e dos próprios desertos interiores. Querem um companheiro a qualquer preço, sem a devida paciência para encontrar e construir uma relação de qualidade que poderá se transformar num casamento.


iG: Qual é o maior problema do casamento?

Aílton: O casamento é complexo e, por isso, são diversos os problemas que pode apresentar. Acho que o ideal é que seja fornecido cinco benefícios para cada malefício. Listo os principais problemas do casamento, entre muitos: a) a escolha do parceiro errado; b) ter e produzir mais custos que benefícios; c) achar algo fora do casamento que seja mais atraente do que existe no próprio casamento; d) pensar individualmente. É preciso acreditar, fazer planos, deixar de seu “eu” e “você” para virar “nós”, entre outros pontos.

Regina: O sexo é o maior problema vivido pelos casais. O casamento é onde menos se faz sexo. É bem maior do que se imagina o número de mulheres que fazem sexo sem nenhuma vontade, por obrigação. Alguns motivos são sempre apontados como responsáveis pelo fim do desejo sexual no casamento: excessiva familiaridade, excessiva intimidade, rotina, problemas domésticos. Mas acredito que o principal motivo é pouco falado: a exigência de exclusividade. No casamento é comum as pessoas se tornarem dependentes do outro, do ponto de vista emocional. Para se sentirem seguras, elas exigem fidelidade. A questão é que a certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, por eliminar a sedução e a conquista. O que fazer quando o desejo acaba é uma questão séria, principalmente para os que acreditam ser importante manter o casamento. As soluções são variadas, mas até as pessoas decidirem se separar há muito sofrimento. Alguns fazem sexo sem vontade, só para manter a relação. Outros optam por continuar juntos, vivendo como irmãos, como se sexo não existisse. E ainda existem aqueles que passam anos se torturando por não aceitar se separar nem viver sem sexo.
“São vários, não tem só um. Mas acho que as falsas expectativas que as pessoas constroem podem tornar-se empecilhos ao relacionamento amoroso.

Beatriz:
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Beatriz: "É fácil ficar motivado no começo, o difícil é manter a relação e fazê-la crescer"
Beatriz: A boa relação não vem “pronta”, ela precisa ser construída e cuidada, como um jardim. Talvez as pessoas se descuidem por sentirem que estão com a relação garantida - o que mantém um amor é o risco dele acabar. Tem que ter a consciência que a gente não domina o outro, que está sempre em transformação. Os casamentos se perdem com a falta de cuidado e é aí que acabam caindo na mesmice. Se as pessoas envolvidas não crescerem, a relação ficará estagnada. A certeza é ilusória, é preciso prestar atenção no parceiro, renunciar várias vezes, olhar e ouvir ao outro e a si mesmo - não para controlar, mas para se interessar.

iG: A diferença entre o fiel e o infiel é apenas a coragem?

Aíton: Não. A coragem pode contribuir, mas tem gente que está ciente que não vale à pena trair, outras gostam mais de sexo, outras têm princípios que se contrapõem à traição. Tem gente que só tem prazer na conquista e perde o interesse depois. Isso aumenta a chance de variar o parceiro. Tem gente que não está ciente que não vale a pena trair. Mais possibilidades: um parceiro ruim de cama ou o fato de estar sendo destratada pelo outro. “Acredito que na maioria dos casos sim, principalmente para as mulheres.

Regina: A coragem não é necessária apenas em relação aos perigos externos como os castigos cruéis praticados em todo o mundo quando uma “infidelidade” é descoberta, mas também em relação aos sentimentos de culpa que a relação fora do casamento pode provocar em algumas pessoas. Pesquisando o que estudiosos do tema pensam sobre as motivações que levam a uma relação extraconjugal na nossa cultura, fiquei bastante surpresa. As mais diversas justificativas apontam sempre para problemas emocionais, insatisfação ou infelicidade na vida a dois. Não li em quase nenhum lugar o que me parece mais óbvio: embora haja insatisfação na maioria dos casamentos, as relações extraconjugais ocorrem principalmente porque as pessoas gostam de variar. O casamento pode ser plenamente satisfatório do ponto de vista afetivo e sexual e mesmo assim as pessoas terem relações extraconjugais. Penso que está mais do que na hora de refletir sobre a questão da exclusividade. Essa é a maior preocupação das pessoas, mas ninguém deveria ser cobrado por isso. Em vez de nos preocuparmos se nosso parceiro (a) transou com outra pessoa, deveríamos apenas responder a duas perguntas: “Me sinto amado (a)?; Me sinto desejado (a)? Se a resposta for positiva, ótimo. O que o outro fizer quando não estiver comigo não é da minha conta, não me diz respeito. Não tenho dúvida que assim as pessoas viveriam muito melhor.

Beatriz: Não, de maneira nenhuma. A pessoa que trai o parceiro está passando por algumas dificuldades. Não podemos fazer generalizações, pois são inúmeros motivos que podem levar a uma traição. Nosso coração e a sexualidade abrigam atrações e paixões, ou seja, somos capazes de sentir atração por várias pessoas, amar duas pessoas ao mesmo tempo, por exemplo. Mas, para você amar alguém e ter uma relação, precisa fazer renúncias – e muitas pessoas não estão dispostas. Quem trai o parceiro, em geral, está com dificuldades para assumir uma posição e fazer uma escolha. Pode querer tudo ao mesmo tempo e viver frustrada por precisar fazer renúncias. Mas existem outros significados possíveis para uma traição: às vezes, a pessoa não consegue se desvincular do parceiro anterior, ou tem medo de ficar só, de se arrepender da separação, de perder o parceiro... A traição pode revelar que a relação não anda bem ou que a pessoa busca afirmações de ordem emocional. A traição tem muitos significados, é preciso compreender as motivações e sentidos para as pessoas envolvidas.

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