“Erótico”, “comedido” e “sujo”: leitoras divergem sobre Cinquenta Tons de Cinza

Seis mulheres de 20 a 75 anos comentam o best-seller com toque de sadomasoquismo, apelidado de 'pornô para mamães'

Verônica Mambrini (iG São Paulo) |

Cristina Gallo/Fotoarena
Convidada a opinar sobre o livro, Beth Vieira é leitora voraz de conteúdos eróticos

Parece um conto de fadas: Anastasia Steele, uma jovem comum e virgem, conhece Christian Grey, empresário bilionário lindo e de olhos acinzentados. O homem perfeito, não fosse pelo fato dele ser adepto do sadomasoquismo, que hoje se costuma chamar BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo). Entre idas e vindas, negociações, recuos e avanços, o casal vai tentando alinhar paixão e limites. É essa a trama de “Cinquenta Tons de Cinza”, de E. L. James, livro que vem causando rebuliço por onde passa. A publicação foi acusada de ser literatura rasa por alguns e ganhou o apelido de "pornô para mamães", por conta do romance que embala as cenas de sexo e sadismo. Será? Enviamos seis exemplares para leitoras com perfis diferentes. Veja o que elas disseram e comente. 

> Silvia Ballan, 40 anos, leu coisas piores na adolescência
A produtora de vídeo Silvia Ballan, 40 anos, é mãe de duas meninas. “Não é o tipo de leitura que eu gosto. A linguagem é melosa, cheia de detalhes, como nomes de marcas e grifes que os personagens usam”, critica.

Alexandre Carvalho/ Fotoarena
A produtora Silvia Ballan achou o livro sem graça. "Já vi coisas 'piores' quando era adolescente."

Ela também antipatizou com Christian Grey. Nem de longe gostaria de um exemplar desses na sua vida. “Acho que existem, sim, homens como ele: chatos, milionários, mandões e dominantes - detesto caras assim - e detesto mulheres como Anastasia, bobas e inseguras”, avalia a produtora.

Em relação à ideia que vem sendo veiculada de que o livro é um “pornô para mamães”, Silvia não concorda: “Não é literatura pornográfica, não tem nada forte e ofensivo para quem já assistiu a filmes do Rocco [Rocco Siffredi, ator e diretor italiano de cinema pornográfico dos anos 70]. Ou vai me dizer que tem gente que aos 40 anos não conhece esse tipo de coisa? Tem vídeos e livros que li na adolescência que dão um baile de sexo neste livro.”

> Vanessa Pedroso, 30 anos, achou as cenas de sexo 'de encher os olhos'
A analista contábil Vanessa Pedroso, 30 anos, praticante de BDSM, faz algumas críticas mais conceituais ao livro, como por exemplo à sugestão da autora de que a prática poderia estar associada a traumas na infância. “É um dos motivos pelos quais quero ler a sequência, para ver se é isso mesmo”, diz. “Isso, no entanto, não tira o mérito do livro, gostei da leitura o tempo todo”, conta.

Como praticante, ela aprovou as cenas de BDSM descritas. “São de encher os olhos, lindas, bem descritas, com riqueza de detalhes. Não caem no vulgar e tiram aquela ideia de que sadomasoquismo é violência, brutalidade”, opina. Vanessa ressalta que nem tudo ela levaria para a própria vida, como o fato de alguém determinar que o ela deve comer ou vestir, como acontece no livro. Cada prática, afirma ela, deve ser combinada antes. “Desde que todos os envolvidos estejam de acordo e sintam prazer não vejo problema algum. No meu caso, até conseguir pensar assim e fazer as pazes com meus desejos levou alguns anos.”

> Daniela Kariya, 35 anos, gostou da 'parte conto de fadas'
"A fantasia é um dos componentes que me divertem nesse tipo de ‘literatura’, a parte conto de fadas”. Daniela é leitora assídua de Júlia e Sabrina, os tais livros água-com-açúcar de banca de jornal. “Para mim foi engraçado ver algo que considerava comum e cotidiano se tornar uma febre. A estrutura da história é exatamente igual a todos os livretos de banca que eu cresci lendo”, conta Daniela.

Marlon Falcão/ Fotoarena
Daniela Kariya é fã de livros românticos como as séries Julia e Sabrina e adorou a trilogia "50 Tons de Cinza"

E será que uma história dessas poderia acontecer na vida real? “Que parte? A parte dela ser virgem, ele ‘biliardário’ e eles se apaixonarem em três segundos? Com certeza não. A parte do BDSM, tenho certeza que existe na vida real”, diverte-se Daniela, que também não se impressionou muito com as cenas de sexo mais fortes.

> Maria Aparecida França, 31 anos, se encantou com Christian Grey
Para a empregada doméstica Maria Aparecida Rodrigues de França, 31, a leitura impressionou. Solteira, ela achou o livro gostoso e fácil. E é entusiasta da mulher independente, mas livre para se entregar na intimidade. “Ser uma mulher submissa na hora do sexo não significa que você vai ter a mesma postura fora do quarto.” Ela confessa que depois de ler o livro, Christian Grey passou a habitar seus sonhos mais íntimos.

> Meide Grunwald, 75 anos, achou sujo, mas gostou!
No time das horrorizadas, está Meide Grunwald, 75 anos, viúva há 11. “Achei muito sujo. Mas apesar de forte, gostei. Estou com vontade de ler os outros dois”, diz. O mais chocante para ela foi o livro ter sido escrito por uma mulher. “E olha que não sou puritana. É muito pesada a forma como ela escreve. Tem passagens nojentas até”, afirma.

Meide botaria Christian para correr se ele batesse à sua porta. “Não gostaria de encontrar com ele de jeito nenhum. É um louco varrido. Não fui santinha com meu marido não, mas aquele é exagerado.”

> Beth Vieira, 41 anos, adepta de BDSM, reconheceu personagens da vida real
“Já vivi um relacionamento de cinco anos, com toda essa coisa de contratos, acessórios, acordos, limites. A diferença é que a dominadora era eu”, diz Beth Vieira, 41 anos, editora do blog "A Vida Secreta". 

Cristina Gallo/Fotoarena
Beth é editora de conteúdo erótico e mesmo com críticas, se rendeu a "50 Tons de Cinza"

Leitora voraz de conteúdo erótico, ela conta que demorou para deslanchar na leitura. “As primeiras páginas foram sofríveis, mas depois do capítulo cinco, a autora acha o fio da meada e consegue desenvolver a história de maneira mais convincente. Demorou, mas fluiu.”

Ao ler “Cinquenta Tons de Cinza”, Beth reconheceu personagens da vida real. “Conheço mulheres inteligentes e bem sucedidas que se envolvem com o BDSM, inicialmente como um jogo sexual e, sem perceber, acabam totalmente nas mãos de seus dominadores, de forma deliberada e consensual. 

“É difícil para as pessoas em geral entenderem como é possível amar e ao mesmo tempo castigar o ser amado”, diz. “Aliás, para qualquer um que se sinta tentado a experimentar o BDSM só por curiosidade, minha orientação é que não faça. Os que têm prazer verdadeiro com as práticas sadomasoquistas, raramente o fazem como escolha, e sim como única alternativa."

Leia tudo sobre "Cinquenta Tons de Cinza":

- Romance erótico que incendiou a imaginação das americanas chega ao Brasil 
- Porque o contrato de 50 Tons de Cinza é tão importante 
- Literatura erótica na onda de 50 Tons de Cinza 
- 50 Tons de Cinza bate Harry Potter 


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