A participante do BBB Renata foi taxada de ninfomaníaca por seus colegas. Mas o que é mesmo ninfomania?

“Você é ninfomaníaca!” Foi assim, direto, apontando o dedo para Renata Dávila e rindo, que o professor de muay thai Yuri Fernandes disse o que muita gente já tinha especulado: que a participante do Big Brother Brasil teria um desejo sexual fora do comum .

Renata fala sobre sexo, brinca e beija os rapazes que quer. Mas isso não faz dela uma ninfomaníaca
TV Globo/ Divulgação
Renata fala sobre sexo, brinca e beija os rapazes que quer. Mas isso não faz dela uma ninfomaníaca
Dentro da casa do BBB Renata fala sobre sexo, faz brincadeiras e já foi vítima de insinuações do apresentador Pedro Bial. Beijou Jonas, flertou com Ronaldo e iniciou um namoro com Rafael. Mas isto seria suficiente para caracterizar uma mulher como ninfomaníaca? “Não temos como diagnosticar uma pessoa apenas assistindo ao programa, mas o fato dela ter beijado os rapazes não tem nada a ver com a ninfomania que é tratada clinicamente. O que ela fez não preenche nenhum critério compulsivo”, esclarece Marco de Tubino Scanavino, responsável pelo Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Além disso, uma pessoa com compulsão sexual não conseguiria passar incólume pela vigilância das câmeras do reality show . “A pessoa teria a necessidade de vivenciar situações sexuais diárias: masturbação e coitos variados com pessoas variadas”, explica o psicólogo Oswaldo Rodrigues Jr, diretor do Instituto Paulista de Sexualidade.

O conceito de ninfomania não é novo: desde o século 2 há relatos do chamado “furor uterino”, que se manifestava em mulheres que tinham um desejo insaciável de sêmen e uma capacidade menor de controlar seus desejos. Mas a definição do que é ninfomania mudou muito com o passar dos anos.

No livro “Ninfomania: História” (Imago Editora), a historiadora norte-americana Carol Groneman conta que o comportamento ninfomaníaco de cinquenta, cem ou duzentos anos atrás hoje pode ser considerado normal. As ninfomaníacas do século 19, por exemplo, eram “mulheres de classe média (...) que experimentavam um intenso desejo sexual, masturbavam-se e até sonhavam com sexo”. Acreditava-se que as mulheres eram naturalmente menos “ardentes” que os homens, e por isso uma mulher de comportamento sexual normal nos dias de hoje, naquela época podia parar no hospício.

Um caso exemplar é o de Rosemary Kennedy, a irmã mais velha do ex-presidente dos EUA John F. Kennedy. Ao fim da adolescência, Rosemary começou a apresentar comportamentos “inadequados” na opinião de sua família. Durante a noite ela escapava do internato onde estudava e vivia. Com receio de que seu comportamento pudesse resultar em promiscuidade, sua família optou por um novo procedimento cirúrgico para acalmar suas alterações de humor e sua rebeldia. Então em 1941, aos 23 anos, Rosemary foi submetida a uma lobotomia. Se por um lado o procedimento resolveu a questão de sua rebeldia e acalmou seus impulsos sexuais, por outro lado a deixou paralisada e incapacitada mentalmente até o fim da vida, em 2005.

Atualmente a medicina rejeita o termo “ninfomania”. Aderbal Vieira Junior, psiquiatra do Ambulatório de Tratamento de Dependências Comportamentais do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo, explica: “Ninfomania é um termo leigo. É mais cultural do que técnico. Nós tratamos de dependência de sexo”. Na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), existe uma categoria chamada “apetite sexual excessivo”, que abrange a ninfomania, para mulheres, e a satiríase, para homens.

O comportamento que era considerado ninfomaníaco há 50 anos hoje é aceito como
Thinkstock/Getty Images
O comportamento que era considerado ninfomaníaco há 50 anos hoje é aceito como "normal"
O excesso de apetite sexual passa a ser um problema de saúde quando a pessoa perde o controle sobre seus impulsos. “Esta perda de controle pode ser percebida no dia a dia: quando a necessidade de sexo faz com que a pessoa perca compromissos importantes, se afaste da família e dos amigos, e dedique muito tempo e energia em busca de experiências sexuais”, define Scanavino.

Para este tipo de dependência, o tratamento é multidisciplinar e bastante abrangente. No Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo do Hospital das Clínicas, após procurar ajuda a pessoa é avaliada por psiquiatras, passa por entrevistas psicológicas individuais e psicoterapia em grupo. O tratamento dura em média oito meses. Passado o período de tratamento, a dependência sexual deve ser administrada, para evitar recaídas.

Quando a questão não é médica, e sim cultural, a ninfomania ganha outro significado. “Chamar uma mulher de ninfomaníaca é uma desqualificação moral”, diz Vieira Junior. “A ninfomaníaca é a vagabunda, é uma mulher moralmente condenável. Isso repercute um padrão cultural nosso: a mulher não deve gostar de sexo, este é o papel do homem”, completa.

Ao manifestar desejo sexual, dividir suas vontades e efetivamente tomar iniciativas com o objetivo de alcançar o prazer, muitas vezes as mulheres despertam inveja em outras, que ainda reprimem suas vontades. Além disso, assustam os homens. “Cada vez mais recebo homens em meu consultório que chegam assustados, achando que suas parceiras são ninfomaníacas. E quando vamos analisar, quase sempre elas são completamente saudáveis”, conta a psicóloga e terapeuta sexual Lúcia Pesca.

Portanto, quando o desejo sexual não resulta em descontrole, não atrapalha a vida e não causa sofrimento, não há motivos para se preocupar. O comportamento de Renata Dávila, dentro do BBB, aparentemente não é patológico. A “ninfomania” de Renata está nos olhos de quem vê. E neste caso, vale a definição clássica de Alfred Kinsey, um dos mais famosos estudiosos do sexo do século 20: “Ninfomaníaco é alguém que faz mais sexo do que você”.

Tendência para vício em sexo pode ser indicado por teste
O questionário abaixo é aplicado pelo Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da UNIFESP (Proad), e foi adaptado a partir de outro, criado nos EUA pelo pesquisador Aviel Goodman.

Mais de seis respostas positivas indicam maior probabilidade de ter dependência de sexo. O resultado do teste não é um diagnóstico, que deve ser feito por um profissional.


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