A trajetória de um paciente e as opções para recuperação. Faça o teste: você tem tendência ao vício sexual?

“Eu tive ao menos 500 parceiros sexuais até os 23 anos”. Essa é a conta que Marcos* fez quando começou seu tratamento de dependência sexual, que já dura 15 anos. Ele procurou ajuda quando não suportava mais seus padrões de comportamento: “Tinha um sofrimento grande. A sensação de descontrole me apavorou”, diz.

O empresário lembra que intercalava momentos de diversão e depressão: “Eu saia na noite com os amigos e no dia seguinte estava no zero, querendo me matar, com culpa e vergonha”, conta ele sobre sua gangorra emocional.

Relacionamentos destrutivos, sexo com muitas pessoas e masturbação compulsiva ocupavam a vida de Marcos. Na época ele abandonou a faculdade, não conseguia trabalhar, se afastou da família e dos amigos. “Toda a energia vai pra loucura. Como eu era novo, foram muitas perdas”, revela.

O primeiro passo
Marcos ficou sabendo das reuniões do DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos). No grupo de ajuda ele começou sua retomada e, em seis meses, voltou para a faculdade e mercado de trabalho: “A negação é muito forte, mas lembro que pensei ‘ou fico aqui e admito que tenho um problema ou vou ficar o resto da vida sofrendo’”.

Para ele, o segundo momento difícil do tratamento foi quando, já recuperado, teve que encarar a volta para a vida normal. “Não é fácil dar conta quando tudo está muito bem. É um processo de sabotagem interna”, diz.

Marcos aponta que o caminho para a superação está nas relações de intimidade com familiares, no casamento e amigos que ficam. “Dar sentido na vida e na carreira”, explica. Essa é uma doença incurável, mas tratável. Quando você admite que tem, facilita muito”, completa.

O comportamento compulsivo

As histórias são diferentes, mas os sentimentos são os mesmos
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As histórias são diferentes, mas os sentimentos são os mesmos
O golfista Tiger Woods foi o personagem de um recente escândalo envolvendo vício em sexo. O esportista assumiu o problema depois que seus casos extraconjugais vieram a público. O ocorrido despertou a atenção para a questão, mas não ilustra sozinho o que é a dependência de sexo.

O comportamento de um compulsivo sexual é determinado por um conjunto de fatores, e não está ligado necessariamente ao número exagerado de parceiros. Uma pessoa com esse problema, por exemplo, pode não ter relações há muito tempo, mas consumir pornografia de forma desmedida. Os sinais da dependência podem incluir também masturbação excessiva, prática de muito sexo casual entre outros sinais.

“As histórias são diferentes, mas os sentimentos são os mesmos”, diz “Rico”, presidente da DASA no Brasil. Segundo ele, os casos têm pontos em comum, mas cada pessoa desenvolve o problema de uma forma e com origens diferentes. São pessoas com crises familiares, vítimas de negligencia, assédio moral ou sexual. “O resultado emocional pode chegar ao mesmo ponto do que alguém que foi estuprado”, avalia.

Os tratamentos
Uma sala com cadeiras em círculo recebe um grupo de homens e mulheres. A reunião do DASA começa com uma oração, seguida de relatos sobre as dificuldades e experiências de cada um. É uma dinâmica semelhante a do encontro dos Alcoólicos Anônimos e conta até com 12 passos de recuperação parecidos com os utilizados pelos dependentes de álcool.

O vício em sexo é como o de drogas ou jogo. Entre as opções de tratamentos está a terapia e até eventual medicação. O psiquiatra Aderbal Vieira Jr., especializado em dependências não químicas, vê a internação em clínicas como a última opção. “Acho que esse comportamento não está adequado na sua vida, para refazê-lo o paciente tem que estar em contato com o mundo. Porém, ficar fora do cotidiano pode auxiliar a romper um ciclo, se reorganizar”, defende.

Aderbal também diz que a maioria dos dependentes procura ajuda tentando suavizar as consequencias do seu comportamento na vida pessoal e não o distúrbio em si. “Alguns ainda minimizam a questão e dizem que param quando querem”.

O tratamento em terapia auxilia o compulsivo a entender a relação que ele tem com sexo e como chegou nesse ponto. A partir de então ele ganha condições de fazer as mudanças. “Uma dependência não é causada por um fator externo, pela droga ou pelo sexo. Ela é uma relação que o paciente tem com uma pessoa ou um comportamento”, explica Aderbal.

Teste indica tendência para vício em sexo
O questionário aplicado pelo Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da UNIFESP (Proad) para detectar a possibilidade de sexualidade patológica foi adaptado de outro, semelhante, criado nos EUA pelo pesquisador Aviel Goodman.

Responder positivamente a mais do que seis itens indica maior probabilidade de ter dependência de sexo. O resultado não é final e aponta apenas uma tendência de comportamento. O diagnóstico deve ser feito por outros meios, com ajuda profissional.


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