Quer ter um relacionamento feliz? Então pare de perseguir um modelo ideal

Ficar apegado a um ideal de vida a dois tende a deixar os casais mais frustrados do que satisfeitos
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Ficar apegado a um ideal de vida a dois tende a deixar os casais mais frustrados do que satisfeitos
A família unida tomando café da manhã em dia de sol é o ícone da felicidade conjugal. Assim como casais de Hollywood ou pares românticos de filmes, a cena da propaganda de margarina é a referência de relacionamento no imaginário de mulheres e homens. Mas ficar apegado a um ideal de vida a dois tende a deixar os casais mais frustrados do que satisfeitos com o casamento ou namoro.

A felicidade no dia a dia pode não ser intensa e perfeita, mas isso não quer dizer que o relacionamento está em crise. Simplesmente mostra que o casamento é humano e normal. “Não dá para querer ser como a amiga ou como na novela porque às vezes isso não coincide com a sua realidade, com os projetos que consegue ou não desenvolver”, avalia a psicóloga Vânia Di Yorio. Ou seja, aquela declaração de amor perfeitamente detalhada nos seus sonhos pode nunca acontecer. O que não significa que seu parceiro não te ama e não diga isso de outra maneira.

Fausto e Nayra:
Arquivo pessoal
Fausto e Nayra: "No namoro a realidade parcial é feliz"

Depois de namorar por quatro anos, Fausto Inomata e Nayra Michi foram morar juntos. O primeiro jantar romântico no novo apartamento foi uma lasanha congelada e refrigerante. “Nunca tivemos a expectativa de ser um casal de comercial de margarina”, conta Fausto, arquiteto de 29 anos. O desafio da relação se tornou a convivência, que se limitava aos finais de semana. “No namoro a realidade parcial é feliz. Antes a gente só se via em dias alegres, agora tem que lidar com o mau humor do outro também”, diz ele.

“Comercial de margarina foi só na festa do casamento mesmo. No namoro tudo era muito mais fácil: saíamos, viajávamos e depois ia cada um pra sua casa. Mas juntos todo dia a gente aprende a conviver com as situações difíceis também”, diz a arquiteta Daniella Abolin, casada há sete anos. Ela namorou o marido Wladimir Souto, analista de sistemas, por dez anos antes de formalizarem a relação e acha importante ter expectativas realistas para manter a relação. “Casamento também é feijão com arroz. Amar não é só jantar fora, transar todo dia, ir ao cinema. É a rotina do dia a dia”, diz o psicólogo Silmar Coelho, especialista em relacionamentos.

Dosando expectativas
Dificilmente alguém entra em um relacionamento sem um modelo. Alguma expectativa ou fantasia todo mundo tem. O importante é que esse ideal possa ser revisto e adaptado para a realidade do casal, diz Vânia. “A perfeição não existe em nenhum relacionamento. A família perfeita é a que sabe trabalhar os problemas”, aponta Silmar.

“Comercial de margarina foi só na festa do casamento mesmo
Arquivo pessoal
“Comercial de margarina foi só na festa do casamento mesmo", diz Daniella Abolin, casada há sete anos com Wladimir Souto

O ideal de relacionamento de cada um tem origem na família. As pessoas imaginam ter uma vida conjugal igual ou diferente dos pais, de acordo com a impressão que tiverem desse modelo inicial. “Além disso há os valores sociais, religião e cultura que trazem elementos para esse casal imaginário que quem bota a prova são pessoas reais”, diz Vânia. Segundo ela, a satisfação na relação depende de como as pessoas aprenderam a equilibrar expectativas e sentimentos.

Eles são mais felizes que nós
Olhar a grama do vizinho ou um casal da TV pode não ser a melhor opção para medir o sucesso do relacionamento. “O marido da outra é perfeito porque não vive com você”, diz Silmar.

“Todo mundo é feliz publicamente”, diz Fausto. Mas na intimidade cada casal tem seus ajustes a fazer, e a tolerância é imprescindível para uma relação duradoura. O importante é incluir na vida conjugal recursos para lidar com os momentos difíceis, porque a vida em conjunto tem frustrações. “Somos compreensivos, aturamos. O amor não é cego. Ele vê tudo, trabalha tudo, entende tudo”, defende Silmar.

Perceber que nem tudo acontece de acordo com o nosso desejo, aponta Vânia, é sinal de amadurecimento da relação, e não de seu fracasso.

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