Entrevista: O escritor Fabrício Carpinejar, autor de “Mulher Perdigueira”, defende relacionamentos intensos e passionais

Mulher Perdigueira, Ed. Bertrand Brasil, R$39,00
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Mulher Perdigueira, Ed. Bertrand Brasil, R$39,00
Você não deve se lembrar da última vez que ouviu um homem dizer que admira e defende mulheres possessivas, daquelas que estão sempre desconfiadas e que morrem de ciúmes. Pois Fabrício Carpinejar é um deles. No livro “Mulher Perdigueira” (Ed. Bertrand Brasil) ele homenageia a mulher possessiva, que segura o homem “pelos dois pés”. O título do livro, não por acaso, faz referência ao cão perdigueiro, originalmente empregado na caça. Em entrevista ao Delas, Carpinejar fala sobre como as pessoas andam confundindo amor com seguro de vida.

iG: Quem é a “mulher perdigueira” e por que você deu este nome a ela?
Fabrício Carpinejar: A mulher perdigueira surgiu como uma espécie de gíria. É aquela mulher que fica no encalço e, assim como o canalha, que em sua origem significa vira-lata, é uma estigmatizada da paixão. A gente sempre pensa que o canalha é um marginalizado no amor, e com a mulher perdigueira não é diferente nesta marginalidade. Todo homem diz que ela não é desejada por causa do excesso de ciúmes, mas isso não é verdade. O problema de um relacionamento nunca é o ciúme, é a indiferença. O amor é justamente misturar defeitos e qualidades e se humanizar violentamente, então eu faço a defesa do ciúme. Se a gente tem a capacidade de legitimá-lo, de aceitá-lo, ele acaba ajudando no relacionamento. O ciúme correspondido ajuda o amor, mas se isolado ele acaba virando suspeita, porque quem o sente acabará encontrando uma maneira de correspondê-lo.

iG: Você acredita que as pessoas desvalorizam o ciúme atualmente?
Fabrício Carpinejar: Ninguém quer saber disso, achamos o ciúme um desrespeito, uma afronta, uma falta de confiança na relação, mas se a gente ajudar o outro, conversar com o outro, é óbvio que não vai virar uma paranoia. Mas nos sentimos valorizados e queremos criar o mistério, o suspense, e aumentar o ciúme, mas quando ele cresce, depois não queremos nos responsabilizar. Se uma mulher está sendo barraqueira, obsessiva, ela tentou avisar do ciúme antes, mas não foi correspondida.

iG: Embora estas características da mulher perdigueira sejam vistas como um defeito, você as vê como uma qualidade? Que outras qualidades ela possui?
Fabrício Carpinejar: Pensando na mulher perdigueira, a gente só pensa nos efeitos colaterais, mas esquecemos deste lado generoso dela, do lado cúmplice, de que ela é transparente, sincera, se ela não gostar de algo ela vai dizer, se gosta também, ela não vai se guardar para depois. Ela é pontual amorosamente, está sempre pensando numa maneira de surpreender, na rotina ela acaba sendo uma mulher mais próxima, também. Ela é a melhor companheira que existe, porque não está se disfarçando e entende que o amor é esta explosão. Só que as pessoas não confessam que querem isso.

iG: O que você acha que as pessoas querem num relacionamento hoje?
Fabrício Carpinejar: Hoje você tem que estar equilibrado, todo mundo quer ter seu próprio espaço, ninguém quer se misturar, se mesclar. É claro que é legal respeitar a solidão do outro, mas há um individualismo que de certa forma não faz a gente querer um amor, mas uma amizade. Não queremos nos desesperar por alguém, queremos mesmo é evitar o sentimento extremado. Se você pode sair e voltar a qualquer hora, se você tem o controle do que você pede num relacionamento, isso é tudo menos amor. Os relacionamentos hoje são mais acordos do que entregas, mas na verdade queremos alguém que possa nos reconhecer.

iG: Você acredita que as pessoas estão procurando mais segurança do que amor?
Fabrício Carpinejar: As pessoas deviam fazer seguros de vida para não confundi-lo com amor. Porque amor é justamente isso, é ficar inseguro, é ter aquele medo de perder a pessoa todo dia, é ter medo de se perder todo dia. É você se ver mergulhado, enredado, em algo que você não tem mais controle. Mas aí o que fazemos? Amamos com limite para não sofrer. Mas eu prefiro muito mais quem se ilude a quem é cético; precisamos desta ilusão que é justamente aceitar o risco que estamos correndo.

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"... Porque amar não é um vexame. Escândalo mesmo é a indiferença." (Fabrício Carpinejar)
iG: Na crônica “Não Sabemos Namorar”, você diz que não acredita nesta história de acomodação do romance, que de uma hora para outra, cansamos. Para você, o que é saber namorar e o que realmente acaba fazendo um casal se cansar do relacionamento?
Fabrício Carpinejar: Eu acho que saber namorar é realmente incomodar, provocar, é ser uma agência de notícias. Se eu almoço sozinho, por exemplo, eu não consigo fazê-lo sem ligar para minha namorada e perguntar o que ela almoçou. Eu quero saber o que ela está comendo, o que ela está fazendo naquele momento. Agora, se a pessoa pensar que o outro não merece saber, se não tiver paciência, é isso que acaba um relacionamento: é a impessoalidade.

iG: E o homem, também pode ser perdigueiro?
Fabrício Carpinejar: Claro, às vezes é até mais perdigueiro do que a mulher; ele sofre com o ciúme, mas também não o aceita. É a mesma coisa, mas em outras porções: ele não sabe confessar mais e não percebe tanto as sutilezas quanto a mulher perdigueira. Porque a mulher é muito melhor perdigueira que ele, é só reparar: ela sabe muito bem quando ele está traindo, enquanto o homem não, porque ela repara nas sutilezas. O homem só é atento na hora do desespero, enquanto a mulher perdigueira é constantemente desesperada. Ele só se dá conta na hora que perdeu tudo, já para a mulher, todo detalhe é essencial e ela se antecipa. Ela se importa com o supérfluo, com o fútil, ela saberia dizer apenas pela roupa do namorado qual a predisposição dele para o mundo, se ele está afim de outra pessoa ou não. O homem costuma mal se olhar no espelho, por outro lado. No dia em que ele se tornar mais metrossexual, mais vaidoso, ele vai reparar mais na mulher; e vai encontrar nela aquilo que trabalhou em si.

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