Blogueiros e fãs de sex toys usam a internet para avaliar produtos. Associação do setor defende testadores profissionais

Eles foram colocados nas prateleiras e na internet em todos os formatos, tamanhos, funções e promessas de revolucionar a vida sexual. Em 2014, 9,5 milhões de brinquedos eróticos – eletrônicos ou não – foram vendidos mensalmente no País. O dado é da Associação Brasileira do Mercado Erótico (Abeme) e apoia uma oportunidade de negócio aos fãs dos sex toys, como os apresentadores Beto Siqueira e Pietra Príncipe e os blogueiros Gabriel Vaz e Tuyanne Potasso. Eles buscam ganhar a vida como testadores de artigos eróticos – profissão ainda inexistente no País.

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Apesar do espaço conquistado pelo mercado adulto, a Abeme reconhece que não existem testadores profissionais entre os principiais fornecedores. Donos de grades marcas confessam que novos vibradores e cosméticos são testados informalmente por funcionários, que dão os feedbacks aos chefes.

“Temos essa carência de testadores. E é um trabalho importante. Se bem feito, além de informar o consumidor, podem estimular o uso dos produtos”, defende Paula Aguiar, presidente do órgão.

Beto Siqueira e Pietra Príncipe do programa Tá Dentro, disponível no YouTube toda quarta-feira
Felipe Abes
Beto Siqueira e Pietra Príncipe do programa Tá Dentro, disponível no YouTube toda quarta-feira

Desde outubro do ano passado, novos críticos do sexo surgiram na internet. Os vídeos e textos são detalhistas, mas invariavelmente incluem uma pitada de humor.

“A gente fala de sexo do nosso jeito. A ideia é informar e ajudar pessoas”, explica a apresentadora Pietra Príncipe, que divide o programa Tá Dentro com Beto Siqueira.

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Com humor escrachado, os dois avaliam do ponto de vista hétero e gay o desempenho dos brinquedinhos, que ganham nota de Chic ou Cheque. Ela garante que todos os produtos são testados fora das câmeras. Falar de sexo para Pietra não é algo novo. A experiência de oito anos no extinto programa Papo Calcinha (Multishow) foi responsável pelo encontro entre a apresentadora e os sex toys.

“Era muito nova e não usava nada. Até que recebi um vibrador para uma matéria. Ele fazia rotações maravilhosas. Aí não tive outra vida”, explica ela, que envolveu até o namorado publicitário nos testes.

“Precisamos parar de tratar o tema como assunto de filme pornô. Muitas mulheres caretas usam e gostam. Queremos dar coragem e ensinar os curiosos”.

“Não somos uma máquina de teste”

Entre a oferta do mercado e insuficientes instruções de uso nas embalagens, o casal Biel e Tuy encontrou uma brecha. Já trabalhando profissionalmente como consultores, palestrantes e a frente do blog Sensualise Moi , os dois adicionaram a função de testadores profissionais ao currículo. A nova tarefa surgiu com naturalidade, conta o fotógrafo.

“Sempre recebemos pedidos de ajuda no Facebook do blog. Uns pedem dicas de produtos, outros não sabem usar algo que compraram.”

Apoiado pela Abeme, o casal diz não era levado a sério pelo mercado por causa da aparência irreverente. Com cabelos compridos e piercings no rosto, Vaz apela às planilhas e uma metodologia de teste para organizar os produtos que tem em casa. Hoje o armário dos dois tem mais de 300 produtos esperando uma avaliação honesta, eles garantem, pois não contam com patrocinadores.

Cada artigo, segundo Vaz, é testado pelo menos três vezes antes de ganhar uma resenha. Um vibrador, por exemplo, é testado primeiro por Tuyanne sozinha. Na segunda fase, ela usa para o marido. E, por fim, o produto é avaliado no sexo a dois.

“A ideia é reproduzir tudo o que uma cliente comum faria”, ensina Tuyanne. Além da funcionalidade, a dupla analisa a embalagem, o rótulo e as instruções de uso.

Testadores de produtos eróticos
Gabriel Vaz e Tuyanne Potasso
Testadores de produtos eróticos

Para eles, o maior desafio da nova profissão é manter a naturalidade do sexo e não deixá-lo mecânico.

“Antes de tudo somos um casal e não uma máquina de teste. Fazer sexo apenas para testar produto acabaria com o nosso relacionamento.”  

Preconceito e a desconfiança do setor

Antes de transformar o sexo em fonte de renda, Tuyanne era funcionária pública em Ribeirão Pires, na região metropolitana de São Paulo. A mudança causou choque na família, que até hoje não apoia a nova opção profissional. Uma saída para a consultora foi privar o pai das postagens que faz nas redes sociais.

“Assim que mudei de profissão virei puta e atriz pornô para eles. Não levam a sério. Até tirei o meu pai do Facebook.”  

A Abeme vê com bons olhos e quer incentivar o crescimento da atividade pelo seu potencial educativo, mas reconhece que o preconceito ainda atrapalha.

“A pessoa expõe a sua sexualidade e sensações e isso ainda é um grande tabu”, observa Paula Aguiar.

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Dois fornecedores questionam a qualidade dos testes independentes na internet. Para André Luiz, diretor da Adão e Eva Toys, empresa de produtos eróticos de São Paulo, testar não deveria ser profissão ou hobby.

“Qual a vivência deles para falar sobre sexualidade? O clima e o dia da pessoa também influenciam diretamente no resultado do produto. Não dá para oficializar uma opinião”, pondera. Hoje, os produtos distribuídos pela empresa são testados aleatoriamente por funcionários antes de chegar aos lojistas.

“Claro que apresento para os lojistas, pois funcionam como uma nova análise. Eles não têm interesse em falar bem ou mal do produto. Acredito que é uma relação mais confiável do que com os testadores”, opina o diretor. Ele sugere ainda a regulamentação da profissão.

“Sem estudo, não existe profissão.” Nesse cenário, Luiz até contrataria um testador oficial para a sua empresa, com salário de, no mínimo, R$ 3 mil.

Dono da consultoria A Sós, que vende produtos eróticos em catálogos pelo País, Paulo Arêdes Matos Júnior prefere testar os seus produtos com colaboradores, consultoras ou “parceiros de confiança”, ele conta.

“Testo com pelo menos dez pessoas e espero o resultado. O risco de um testador profissional é ele acabar viciado naquilo e perder a naturalidade. Não existe amostragem melhor do que aquele feito pela pessoa comum”.

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