Velha história do amor imperfeito e de mulher que ‘conserta’ homem ‘quebrado’ encanta mais as leitoras do que o sadomasoquismo e as cenas de sexo detalhadas das obras

Atualmente, fazendo sucesso com sua versão para o cinema, tendo faturado até agora R$ 1,7 bilhão de bilheteria mundial, o fenômeno literário “Cinquenta Tons de Cinza” deu o start para uma onda de livros eróticos destinados às mulheres. Só os três volumes que contam as aventuras de Christian Grey e Anastasia Steele, escritos pela britânica E. L. James, já ultrapassaram a marca de 100 milhões de cópias vendidas internacionalmente, segundo a editora norte-americana Vintage Books, que detém os direitos da série.

Mas não são só os livros “50 Tons” que atraem multidões de fãs para a literatura erótica 'soft porn', apelidada assim por conta de seu erotismo leve. Outras obras na mesma linha também faturam alto. Um exemplo é a série “Crossfire”, de Sylvia Day, que já vendeu internacionalmente mais de 12 milhões de cópias, em 38 idiomas.

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Fãs dos livros eróticos de Sylvia Day em encontro com a autora americana , via Skype, na Livraria Cultura, em São Paulo
Edu Cesar
Fãs dos livros eróticos de Sylvia Day em encontro com a autora americana , via Skype, na Livraria Cultura, em São Paulo

Recentemente, fãs do romance entre Eva e Gideon, casal protagonista dos livros “Toda sua”, “Profundamente sua”, “Para sempre sua” e “Somente sua” da série de Sylvia Day, se reuniram na Livraria Cultura, em São Paulo, para um bate-papo virtual com a autora. O Delas esteve lá para conversar com as leitoras e entender o porquê de tanto sucesso da literatura erótica 'soft porn' com as mulheres.

Durante o bate-papo, as leitoras puderam conversar com a escritora e questionar o destino dos personagens nos próximos capítulos, bem como a inspiração para um romance que tem conquistado mulheres mundo afora, especialmente as mais jovens. Para Taisa Oliveira, de 19 anos, o grande atrativo e é que a narrativa não se limita a cenas tórridas de sexo entre Eva e Gideon.

“Comprei o primeiro livro da série e me encantei à primeira vista. Sou fã de carteirinha. A autora foi brilhante ao pensar essa história, porque é um romance erótico que não cai naquele clichê dos contos de fada, de príncipe e princesa que se amam, nem no extremo da pornografia”, justifica a estudante.

Ela já está no terceiro livro da série e conta que leu os demais volumes em questão de semanas, ‘de tão viciante que é a história’. Os livros de Sylvia Day foram os primeiros de literatura erótica com que Taisa teve contato. Nem mesmo “50 Tons” caiu no gosto da estudante. Segundo ela, a temática BDSM do romance entre Christian e Anastasia não chama tanto a atenção como o envolvimento entre Gideon e Eva.

Rosana Fernandes:
Arquivo pessoal
Rosana Fernandes: "O que me fascinou foi ver como um sentimento pode mudar as pessoas"

50 TONS DE TERNURA

Para os leitores de “50 Tons”, a explicação para essa febre mundial é basicamente a mesma: o envolvimento apaixonante e dramático entre os protagonistas, que inclusive têm uma trajetória um pouco semelhante com Eva e Gideon. O que prende as leitoras do começo ao fim vai além das fantasias de sadomasoquismo que Christian vai, aos poucos, compartilhando com Anastasia. A ideia de um rapaz traumatizado e ‘quebrado’, que pode ser salvo pela mocinha pura e apaixonada, é o grande atrativo. Como um conto de fadas moderno.

“O que me fascinou foi ver como um sentimento pode mudar as pessoas. Ninguém mais acredita nisso hoje em dia. Eu vi uma moça ingênua, que não tinha experiência, e se apaixona pelo Christian. Com a Anastasia, ele descobre uma nova forma de amor. É uma história que vai evoluindo, porque ela vai ensinando para ele o que é o verdadeiro amor.”, se derrete a funcionária pública Rosana Fernandes, de 52 anos. Ela vê a trilogia como um ‘Romeu e Julieta bem diferente’.

Para Rosana, que leu a trilogia completa de E. L. James e os livros da série Crossfire, as semelhanças são indiscutíveis. Alguns fãs até acreditam que o romance entre Eva e Gideon foi inspirado em Anastasia e Christian. Ela concorda, mas ainda prefere a trilogia original.

Luciana Lazarine não esconde seu fascínio por Christian Grey, protagonista de
Arquivo pessoal
Luciana Lazarine não esconde seu fascínio por Christian Grey, protagonista de "50 Tons"

“Não achei os livros tão diferentes assim. Só que os da Sylvia caem mais na questão do erotismo explícito. ’50 Tons’ é mais sensível. Gostei mais da trilogia por conta do envolvimento dos personagens. A série Crossfire tem mais termos chulos, por exemplo, e é um pouco mais agressiva. Mas os personagens têm histórias semelhantes e alguns traumas, tanto que pensei que era plágio mesmo”, aponta Rosana.

Para a telefonista Luciana Lazarine, outro ingrediente importante é o fascínio exercido pelo protagonista Christian. Enquanto os críticos o veem como o menino rico, dominador, abusador e esnobe, ela enxerga um príncipe encantado às avessas, que precisa do amor de Anastasia para se tornar “ainda mais perfeito”.

Tem a safadeza, as cenas excitantes, mas é muito mais legal acompanhar e vibrar pelo amor que existe entre eles" (Luciana Lazarine)

“Ele é apaixonante, de verdade. Não tem como você ler o livro e não se imaginar em algumas cenas com ele. São situações que não existem na vida real, mesmo que o cara fosse o maior dos milionários. Ele faz tudo por ela, coisas de outro mundo, e isso é muito envolvente. O que prende a gente na leitura não é a questão do sadomasoquismo, porque é um livro mais romântico do que qualquer outra coisa. Tem a safadeza, as cenas excitantes, mas é muito mais legal acompanhar e vibrar pelo amor que existe entre eles”, acredita Luciana.

Livros da autora Sylvia Day, estrelado pelos personagens Eva e Gideon
Edu Cesar
Livros da autora Sylvia Day, estrelado pelos personagens Eva e Gideon


EU TAMBÉM POSSO 

Ariane dos Santos Gonçalves, também estudante, é expert em literatura erótica e já leu outros títulos além de Crossfire, tanto da escritora Sylvia Day como de outros autores. Para ela, as mulheres idealizadas pela autora são personagens fortes e decididas, o que transforma a narrativa em uma boa fonte de inspiração para a vida real.

“Por muito tempo, a literatura de um modo geral falou de protagonistas frágeis, sem voz. O gênero erótico tem mostrado que a mulher pode sim ser independente, determinada e forte, sem precisar deixar o sexo de lado. É um jeito muito legal de derrubar os tabus que ainda existem na sociedade. Se a personagem pode fazer, por que eu também não posso?”, indaga Ariane.

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