Colunista convidada diz que, em busca de aprovação numa sociedade ainda bastante machista, muitas mulheres abrem mão da camisinha para agradar seus parceiros

* Por Silvia Pilz

Sempre que os sentimentos da experiência do momento afloram, nossas tomadas de decisão também mudam. Na hora H, agimos mais com emoção do que com a chata da razão. Exemplo: Se eu me perguntasse, antes da minha entrevista com a Patrícia Araújo [ faz anos que isso aconteceu mas é impossível esquecer aquele monumento], qual o grau de atração que eu tenho por travestis, não hesitaria em afirmar que numa escala de zero a dez, zero. Ao me deparar com a deusa, e no ápice da entrevista, se eu me fizesse essa mesma pergunta, provavelmente, minha resposta mudaria. Passaria pra uns oito ou 10, seja pelo meu encantamento por estar diante de uma mulher fascinante, pela quebra de pré-concepções ou por pura excitação mesmo.

Camisinha: na hora H, muitas mulheres tem dificuldades para negociar o uso do preservativo
Thinkstock/Getty Images
Camisinha: na hora H, muitas mulheres tem dificuldades para negociar o uso do preservativo

Todo mundo fala que não abre mão da camisinha, mas a irrigação de hormônios muda esse quadro rapidinho. Somos previsivelmente e deliciosamente irracionais. A cultura do imediatismo, onde tudo é acelerado, também diminui o valor da qualidade das experiências, privilegiando a quantidade. Orgasmo parece ser sinônimo de pressa, por mais lento que o processo pareça. Uma eterna cegueira enquanto dura. Talvez um dos únicos segundos em que as pessoas consigam pensar somente e tão somente no momento presente.

Mesmo se vangloriando de seu desempenho na cama, pesquisa afirma que o brasileiro se considera infeliz sexualmente. Tem problemas de ereção e em relação ao tamanho do membro, sabe que a mulher tem dificuldades para atingir o orgasmo, entre outras neuroses que eu desconhecia.

O massacre da mídia à imagem da mulher reforça o comportamento destrutivo. Sendo assim, parece que a camisinha é mais uma coisa chata para atrapalhar o que já não é lá essas coisas. Acaba por se tornar uma ameaça ao bom desempenho na hora da cama. Confesso. Assim como a torcida do Flamengo, também acho que a versão sem cortes e pausas é melhor, apesar de arriscada. Quando o irracional torna-se racional, o melhor do sexo já era. Daí a dificuldade de inserir a camisinha, sem dramas, no roteiro ou no contexto.

"Há claramente, uma relação entre autoestima e uso de preservativos. É o amor próprio que está em falta no mercado. Porque camisinhas e campanhas não faltam"

Fora isso, a mulher, que também quer ser aprovada e espera a ligação do moço no dia seguinte, parece sentir-se intimidada em tirar a camisinha da bolsa, num primeiro encontro. Ainda apegada a um modelo de comportamento “mocinha”, fruto de uma educação pra lá de machista e contraditória, acredita que muita atitude espanta o pretendente. Parece piada. Mas não é. Anal, nem pensar. Só depois de casar [risos].

Numa conversa sobre o não uso da camisinha, um amigo me disse que adolescentes mais feinhas começam a ter relações sexuais mais cedo que as mais bonitinhas. Por se sentirem fora dos padrões estabelecidos e para conseguirem vantagem no jogo de sedução, elas se atiram ao sexo de forma irresponsável, tornando-se meninas mais vulneráveis. Há claramente, uma relação entre autoestima e uso de preservativos. É o amor próprio que está em falta no mercado. Porque camisinhas e campanhas não faltam. Assim como também não faltam pílulas do dia seguinte e cartelas de engov para ressaca moral.

Quando a autoestima é baixa, um é facilmente convencido a abrir mão para não perder o desejo do outro. Fato. Continuando a conversa, ele me conta, como se eu não soubesse, que toda mulher tende a deixar de usar o preservativo depois que a relação com o homem começa a ficar “estável”, ou seja, normalmente depois de duas horas de boa conversa.

As mulheres tendem a acreditar que o parceiro é ou não do grupo de risco fazendo uma análise superficial e romântica do comportamento do sujeito. Explico: É educado, almoça com a família aos domingos, não usa drogas injetáveis, abre a porta do carro, come pipoca no cinema e se masturba imaginando que está transando com duas mulheres ao mesmo tempo. Enfim, modelo básico, taradinho família.

Só quem não cai nesse tipo de conto são as prostitutas, em geral, mais cuidadosas do que as mulheres que não vivem do sexo. O grupo de risco mudou. Aliás, isso já nem existe mais. Dentro do grupo das profissionais, por exemplo, as prostitutas de luxo são as mais exigentes e não abrem mão da camisinha. Já as garotas de programa mais pobres chegam a aceitar sexo sem camisinha, geralmente quando o homem, seja ele um jogador de futebol, um advogado, um dentista ou um empresário, se dispõe a pagar mais pelo privilégio.

* Silvia Pilz é jornalista
www.silviapilz.com.br

    Leia tudo sobre: amor
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.