Após a era dos sites de paquera, Tinder une pessoas que estão a poucos quilômetros de distância e já tem histórias com final feliz. Para experts, segredo é ajustar expectativas

Tudo começa com um login por meio do Facebook. Pela localização do celular, o aplicativo seleciona os perfis das mulheres ou dos homens mais próximos. Os usuários correm o olhar pelos variados rostos e estilos até encontrarem um que agrade mais – e, então, clicam no ícone do coração para demonstrar que gostaram do que viram. Caso a sorte contribua e você também receba um coração de volta, aparece uma notificação de que o par combinou e uma janela de mensagem instantânea se abre para uma possível conversa. Prazer, Tinder.

Cris e o namorado: ferramenta virtual levou o relacionamento para o mundo real
Edu Cesar
Cris e o namorado: ferramenta virtual levou o relacionamento para o mundo real


Boa parte da alfabetização digital brasileira se deu com o Orkut. E ele até tinha um recurso similar, a crush-list, mas sem a eficácia, a interface mobile e os recursos de geolocalização do Tinder

Foi com a ferramenta que Cristina Bettarello, 36, conheceu Ricardo Grego, 39, há um mês. Ela conta que se sentiu segura desde o início. "A primeira impressão que eu tive ao baixar o aplicativo é que havia pessoas bonitas e, muitas vezes, com algum amigo em comum, o que acabava sendo uma forma de pesquisar se as informações passadas eram verdadeiras", diz.

Após poucos dias, a foto de Cristina cruzou com a daquele que se tornaria seu namorado. Era pouco tempo, mas o suficiente para saber que de um contato virtual poderia brotar muito mais. "Falei com 15 pessoas, mas ele era o único que me procurava todos os dias, nem que fosse apenas para saber se eu estava bem", relembra. "Somos extremamente parecidos em termos de caráter e planos para o futuro. Costumo brincar que, mesmo se alguém tivesse dado uma receita de como agir comigo, ele não teria acertado tanto".

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De acordo com Aurélio Melo, psicólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, os relacionamentos que começavam em salas de bate-papo dez anos atrás poderiam ser perigosos e eram recorrentes entre pessoas tímidas, antissociais e com dificuldade de se aceitar. Atualmente, o encontro virtual, seja por redes sociais ou aplicativos, já é considerado parte do dia a dia e é mais um círculo social a ser agregado além da família, do trabalho ou dos colegas de infância. "A vontade de encontrar alguém totalmente diferente dos grupos já frequentados é natural, por isso surge a necessidade de falar com pessoas pela web".

Ana Luiza Mano, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI) da PUC-SP, concorda e acrescenta que, no mundo de hoje, conhecer alguém online pode trazer segurança e conforto. "Quando há o interesse por alguém, existe o tempo para pensar melhor se você realmente quer e investigar a vida do outro para checar as afinidades".

Confiança

Estar atrás da tela é uma posição confortável. "É aquela velha história do confessionário, em que os segredos são revelados sem o receio da censura interna - uma vez que o padre, no caso, não consegue enxergar o narrador, apenas ouvi-lo", afirma Melo. Consequentemente, como as pessoas não estão completamente expostas, a rejeição, a frustração e o medo do julgamento alheio são muito menores. "A aceitação é mais fácil, porque não é como se alguém o tivesse deixado falando sozinho. A margem para a fantasia é muito grande: 'será que ele desistiu mesmo de conversar? Ou acabou a bateria? Ou esqueceu o celular em casa?’ É tudo tão rápido que às vezes o outro nem sabe que foi preterido", ressalta Ana Luiza.

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Por coincidência, as duas uniões de Cristina tiveram início com a ajuda de um computador. "Na primeira vez, foi um amigo em comum que disse para adicionar meu primeiro marido no ICQ. Na segunda vez, eu estava em crise no casamento e procurava distração conversando e desabafando com desconhecidos em um site de relacionamentos. Talvez não fosse tão seguro, mas não queria preocupar meus pais e meus amigos. Foi a única opção que encontrei na época", recorda-se. E, em sua opinião, um dos pontos altos do Tinder é que é possível, sim, encontrar uma pessoa bem intencionada, assim como Ricardo.

Edu Cesar
"Ele era o único que me procurava todos os dias, nem que fosse apenas para saber se eu estava bem", relembra Cristina

"É uma ferramenta prática e objetiva que pode ser manuseada por pessoas de todos os tipos e interesses. Há quem o use para incrementar a vida sexual, mas também há aqueles que podem utilizá-lo para conhecer pessoas legais que, dependendo do papo e da química, sairão juntas ou não", explica Alexandre Inagaki, consultor de projetos de comunicação digital e autor do blog "Pensar Enlouquece" . "Boa parte da alfabetização digital brasileira se deu com o Orkut, rede social que fez com que muita gente tivesse sua primeira página pessoal, adquirindo hábitos como publicar fotos próprias, falar com pessoas por meio de comunidades, reencontrar amigos usando buscas e dar uma bisbilhotada nos scrapbooks dos outros. E ele até tinha um recurso similar, a crush-list, mas sem a eficácia, a interface mobile e os recursos de geolocalização do Tinder", relembra.

Foram todos esses atributos inovadores, aliás, que atiçaram a curiosidade de Yasmin Luca, estudante de Direito de 20 anos moradora de Londrina (PR), que se rendeu ao aplicativo após a insistência dos amigos da faculdade. "Na verdade, eu gostava mais de usá-lo como forma de entretenimento, e não como fonte de paquera – o real motivo pelo qual foi criado. É divertido e misterioso saber, por exemplo, que o interesse por um cara pode ser recíproco ou que existe a possibilidade de entrar em contato com pessoas que antes seriam pouco prováveis".

Ela, no entanto, nunca teve coragem de marcar um encontro pessoalmente. "Não sei se por ignorância, medo ou preconceito. Sou filha única de uma mãe solteira superprotetora, então creio que isso acabe me influenciando de muitas maneiras e me impeça de abrir a cabeça para novas experiências", analisa.

Assim como Cristina, que olhou Ricardo nos olhos pela primeira vez em um pub em São Paulo acompanhada de uma amiga, Silvia Freitas, 27 anos, também teve coragem de sair do on para o offline. "Eu já usava o aplicativo há dois meses e, de repente, comecei a conversar bastante com um menino. No dia seguinte, ele me mandou uma mensagem e apareceu no bar em que eu estava com meus amigos. Não fiquei com o pé atrás, porque eu não estava sozinha e já tinha conhecido outras pessoas pela internet antes”, diz. Não deu certo, mas valeu a oportunidade.

Será?

Para Yasmin, a maior desvantagem do Tinder são os usuários que o tornam um bate-papo sexual. “Depois dos frequentes ‘de onde você é?’ e ‘o que você faz?’, era sempre a respeito de ir ao apartamento do cara ou ir para um lugar mais reservado, mas não era esse o meu objetivo”.

Para o psicólogo Aurelio Melo, nessas situações não é preciso se sentir ofendido ou dar lição de moral. É apenas uma questão de comunicação – cada um tem seu propósito ao recorrer à plataforma. “O único cuidado seria em relação ao alinhamento de expectativas. Algumas mulheres podem aceitar sair com um pretendente, que já havia deixado clara a sua intenção, mas pensam que podem mudá-los com o tempo ou fazer com que se apaixonem. Pode acontecer, claro, mas as chances de frustração são grandes. Elas se sentem enganadas pelo outro, mas, na verdade, elas mesmas se iludiram com os sonhos que projetaram”.

Buscar a possível metade da laranja por meios virtuais é uma tendência contemporânea. Segundo Inagaki, no entanto, não é um aplicativo que revolucionou o comportamento da sociedade, afinal é natural do ser humano a vontade de se envolver. “Nada mais é do que um facilitador de encontros. Outros sites de relacionamento também vêm sendo muito utilizados para a procura de amores duradouros ou fugazes. É algo totalmente compreensível, já que homens e mulheres sempre procuraram uma companhia”, conclui.

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