De tratamento psicológico a artigo sexual, conheça um pouco da história desse aparelho que ajudou a desmistificar a sexualidade feminina

Não é de hoje que a popularidade dos vibradores é tão vasta quanto sua eficácia. Inicialmente desenvolvido com objetivos médicos, o manipulador caiu no gosto popular, ganhando o título de um dos brinquedos eróticos mais vendidos no mundo. “O vibrador é um dos produtos mais femininos que existe, pensado para a saúde da mulher. Foi algo muito libertador”, comenta a presidente da Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (ABEME) e autora do e-book “Vibrador – o livro”, Paula Aguiar.

Criado com fins terapêuticos no final do século 19, o vibrador foi inventado para curar um dos males que, acreditavam os especialistas, afligia as mulheres nessa época: a histeria. Responsável por dores, mudanças bruscas no humor, sonambulismo e outros tipos de sintomas, a solução encontrada para a cura temporária da doença era a manipulação da vulva da paciente. A prática acontecia no próprio consultório do médico, e o resultado era chamado de “paroxismo histérico”, quando a vulva se contraia e ficava lubrificada. Hoje em dia, essa cura é conhecida por um nome muito mais agradável: orgasmo.

Para ajudar suas pacientes, os médicos podiam ficar horas na manipulação da vulva, esperando o efeito amenizador dos ataques histéricos. Em 1869, para facilitar o trabalho e otimizar os atendimentos, o médico George Taylor criou um aparelho à vapor muito mais eficiente que os dedos médicos, chamado The Manipulator, ou O Manipulador. Nascia, em Londres, o primeiro vibrador.

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O sucesso do aparelho ajudou a saúde sexual de inúmeras mulheres, e em 1880, o médico Joseph Mortimer Granville criou uma versão do manipulador movido à manivela. Essa praticidade fez com que as pacientes não precisassem ir até o consultório para receber o “medicamento”, melhorando os sintomas da doença no conforto do seu próprio lar. A partir daí, o vibrador passou a ser um dos produtos mais vendidos no mercado dos eletrodomésticos, com anúncios em jornais de grande circulação. “O vibrador era tido como um eletrodoméstico que servia para curar a dor. Era vendido nos grandes magazines da época”, conta Paula Aguiar.

No começo dos anos 20, no entanto, o vibrador começou a ser utilizado em filmes pornográficos, ganhando uma conotação sexual negativa. “A questão cultural da sociedade influencia na imagem de um determinado produto. A sexualidade em si é um grande tabu”, diz Paula. A disseminação dessa fama do vibrador foi prejudicial, fazendo com que o produto perdesse lugar nas prateleiras, até cair no esquecimento.

Seu retorno foi nos anos 50 e 60, com a revolução sexual e o surgimento da pílula anticoncepcional.

Além de revolucionário, o uso do vibrador abriu as portas para uma questão muito mais complexa: a sexualidade feminina. “As mulheres são tão ativas sexualmente quanto os homens, mas elas não têm tanto acesso ou contato com seu órgão sexual. A masturbação feminina sempre foi vista como algo errado”, explica o psicoterapeuta sexual Paulo Tessarioli. “A grande sacada do vibrador é permitir todo esse conhecimento do corpo feminino que, por muito tempo, esteve restrito”.

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O fato das mulheres conseguirem atingir o orgasmo de maneira independente, no entanto, acabou causando uma ruptura em tudo o que sempre se acreditou na questão do sexo. “Agora, a mulher não precisava de um pênis, não precisava de penetração para sentir prazer. Ela podia fazer isso sozinha! Foi uma verdadeira mudança”, comenta Paulo.

O psicoterapeuta afirma que apesar de o conhecimento sobre o órgão sexual feminino já estar quase esgotado, ainda existem questões que precisam ser trabalhadas. “Antigamente, falavam que a mulher tinha uma tal de ‘inveja do pênis’, como se a mulher não tivesse sexualidade igual ao homem. Isso era sobre o clitóris, uma estrutura incrível no quesito de prazer feminino.”

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Paula Aguiar comenta que, por maior que tenha sido uma revolução, a compreensão em volta do vibrador ainda está se desenvolvendo. “As mulheres ainda vão perceber a importância desse equipamento, e os homens também! Ele vai perder aquela pressão de ser o responsável pelo orgasmo. Mas é importante lembrar que, por melhor que seja, nenhum aparelho substitui o homem.”

Evolução dos vibradores se mistura à história da liberação sexual feminina
Divulgação/Good Vibrations
Evolução dos vibradores se mistura à história da liberação sexual feminina


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Apesar do tabu, o consumo do sex toy no universo feminino é grande. Cerca de 70% dos compradores são mulheres – e para a felicidade masculina, elas investem nesses itens sexuais principalmente para usar em conjunto. “90% dos brinquedos adquiridos são para o uso em casal”, comenta Paula. Para os iniciantes, a escritora recomenda que o primeiro contato seja feito com o estimulador tipo bullet, que é pequeno e prático. “Para comprar vibradores pela primeira vez, eu sempre dou dicas de ouro para os meus clientes: que seja um produto barato, simples, nacional e pequeno. O bullet é ideal”.

Uma maneira de apimentar a relação, se descobrir, encontrar prazer e melhorar as funções do corpo, o vibrador já é o brinquedo do futuro recheado de vantagens. Que tal investir? “O vibrador serve para completar aquele conhecimento que ainda falta sobre o corpo da mulher. E o sexo bom é aquele realizado entre duas pessoas completas”, finaliza Tessarioli.


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