Conviver com fome, sono e cansaço durante uma competição pode colocar à prova um relacionamento, mas casais gostam do desafio

Imagine conviver uma semana, praticamente 24 horas por dia, em apenas um grupo de quatro pessoas. Nesse grupo está o seu namorado ou marido. E vocês estão no meio de uma corrida de aventura – uma prova na qual se tem um mapa, uma bússola e um percurso a ser percorrido em área de natureza a pé, praticando trekking, pedalando na mountain bike, nadando ou fazendo canoagem. Não há qualquer regalia, como lugar para dormir ou tomar banho. Ainda assim, os casais aprovam a experiência.

Na 10ª edição do Ecomotion/Pro, ocorrida em agosto na Costa do Cacau, sul da Bahia, foi muito comum ver casais nas equipes (quartetos formados por três homens e uma mulher). A Columbia, bicampeã da corrida, se encaixa no perfil. E o seu casal é internacional: Barbara Bomfim é brasileira e namora o espanhol Urtzi Iglesias. Eles se dividem entre Brasília, cidade da família de Barbara, e o País Basco, onde vive e trabalha o professor Urtiz.

“É bom porque é o nosso estilo de vida. Muita gente quer acabar a prova logo para estar junto do marido ou namorado, mas a gente já está um ao lado do outro, então se chegar rápido ou depois, tanto faz, a gente já está aproveitando”, explica Barbara. “Mas na corrida somos companheiros, e não namorados”, ressalta Urtzi, que é o capitão da Columbia e responsável pela navegação e definição de percursos.

Urtzi e Barbara:
Aretha Martins/iG
Urtzi e Barbara: "deixei ele ganhar e ele se apaixonou", brinca

Eles se conheceram no final de 2011, em uma corrida de aventura na Costa Rica. “A gente competia contra. A equipe dele ficou em primeiro e a minha, em segundo. Passamos muito tempo juntos na corrida, trocando posições”, lembra a atleta. “Eu deixei ele ganhar, e ele se apaixonou”, brinca Barbara.

Saber como o outro reage e conhecer os limites e pontos fortes e fracos do parceiro contribui para a corrida de aventura. "Acho muito bom competir ao lado do Juninho porque a nossa intimidade ajuda na sintonia da equipe", fala Mariza Souza, da Brou Aventuras, mais uma na disputa da prova no Sul da Bahia. Ela concorda com o casal da Columbia. “Se estou calada no meu canto, ele nem precisa falar comigo, nem deixa os meninos do time me incomodarem. Sabem que ali é um momento meu, que daqui a pouco fica tudo bem”, exemplifica ela, que se casou com Moacir Fernandes Junior no começo deste ano.

Vida social zero

A vida de um corredor de aventura exige dedicação. Para Camila Nicolau, terceira colocada no Ecomotion/Pro com a equipe BMS, ter um companheiro no mesmo esporte ajuda na convivência. "Dá muito certo porque é difícil encontrar alguém que consiga acompanhar e entender o ritmo. Conheço casais que não deram certo por não entenderem o nosso ritmo. A gente treina, vira noite. Falam ‘vamos num churrasco’, mas a vida social é zero", explica a atleta. Ela é casada com Guilherme Pahl, também do time BMS.

No caso de Camila e Guilherme, a parceria vai além da corrida. Eles moram em Brasília e têm uma escola, a Oficina Multi Esporte, onde oferecem treinos de corrida, canoagem e mountain bike. “A gente trabalha junto, treina junto, dorme junto, acorda junto e por aí vai”, brinca a corredora. Camila e Guilherme acabaram em terceiro lugar no Ecomotion/Pro.

Mais um casal na corrida da Costa do Cacau é Rosemeri Müller e Valmir Schneider, da equipe Papaventuras. Eles começaram no esporte em 2001 e veem a prática como uma forma de passar férias em família. Também aproveitam o tempo livre para treinar juntos e encaram o assunto com muito bom humor. “Para eu não me separar, sou obrigado a pedalar com a minha esposa. No domingo a gente faz um pedal de 6 ou 7 horas, mas não é nada de treino, é um passeio mesmo”, fala Valmir, dono de uma transportadora em Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. Rose é professora de educação física e o casal tem dois filhos, Larissa, de 13 anos, e Lavínia, de cinco. A mais velha já segue os passos dos pais na corrida de aventura.

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Namoro de um lado, competição do outro

O Ecomotion/Pro também colocou casais em lados opostos. Renata Mariani, da Sol de Indiada, conheceu o namorado Pedro Vianna, da Harpya, há pouco mais de um mês em outra corrida de aventura.

“A Léo (Leonice Cecconello), da Harpya, é uma das minhas melhores amigas. E o Pedro curtia as minhas fotos na página dela no Facebook. Em julho teve uma corrida e nos conhecemos. Ficamos e estamos juntos. Agora ele morre de ciúmes porque a gente não vai correr na mesma equipe”, resume Renata. Ela já havia combinado há mais de um ano que competiria pela Sol de Indiada, convencida pelo amigo Evandro Clunc. “Não tinha como mudar, já estava treinando com os meninos”, justifica.

Apesar da ‘separação’, o casal também vê vantagens por estar em lados opostos. “Acho que é até bom não competir juntos logo no começo do namoro. A gente sabe que a corrida é muito estressante. Já pensou ter a primeira briga do casal aqui?", fala Pedro. "Eu tenho obrigação de ganhar dela”, provoca.

Mas tudo não passou de brincadeira. A reportagem encontrou com Pedro na etapa de natação. A primeira pergunta dele foi “E a equipe da Renata, já passou? Ela está bem?”, questionou o namorado. Sim, estava tudo bem com a amada, mas quem venceu a aposta foi Pedro. A equipe do carioca ficou em 11º no Ecomotion/Pro, enquanto a Sol de Indiada foi a 18ª.

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* A repórter viajou a convite da organização

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