O universo BDSM nunca esteve tão falado, mas ativistas não acreditam que a aceitação social virá tão rápido – nem com o sucesso da trilogia “Cinquenta Tons”

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Práticas sadomasoquistas nunca estiveram tão presentes nos meios de comunicação
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Práticas sadomasoquistas nunca estiveram tão presentes nos meios de comunicação

Em uma noite de sexta-feira, um pequeno grupo de pessoas fazia fila diante da entrada sem identificação do Paddles, um clube na West 26th Street, em Nova York. Dois homens na casa dos 60 anos estavam discutindo o mercado imobiliário e algumas mulheres de 20 e poucos estavam enviando torpedos de última hora antes de descer dois lances de escada para o subterrâneo onde funciona o clube.

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O Paddles é um "espaço seguro" para viver fantasias eróticas, especificamente BDSM (bondage / disciplina, dominação / submissão, sadismo / masoquismo), OTK (sigla para "over the knee", de joelhos, para descrever o espancamento consensual), e uma série de outras siglas que descrevem práticas sexuais até recentemente desconhecidas do público geral.

Mas, certamente devido ao grande sucesso da trilogia "Cinquenta Tons", de E.L. James (65 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, de acordo com o Publishers Weekly), as pessoas atraídas por estas práticas sexuais estão como nunca no centro das atenções.

Em fevereiro, "kink", documentário dirigido por Christina Voros e produzido por James Franco, estreou no Festival de Cinema de Sundance. (A Hollywood Reporter classificou-o como "um filme simpático sobre pessoas aparentemente razoáveis que fazem coisas terríveis uns aos outros diante da câmera por dinheiro.")

Frases como "palavra de segurança" são cada vez mais parte da cultura pop. Em "Shameless", série do canal Showtime, Joan Cusack interpreta uma mãe às voltas com um amante mais jovem e sua coleção de "brinquedos".

E os praticantes de BDSM da vida real - alguns dos quais estão se apropriando da nomenclatura "pervertido", tanto quanto os ativistas gays se apropriaram de "bicha" - estão se perguntando se serão os próximos a poder "sair do armário" e começar a viver vidas mais abertas e integradas - assim como a comunidade LGBT antes deles.

Mas esse tempo, ao que parece, ainda não chegou. Uma estudante universitária de Long Island, de 20 anos de idade e que se descreve como submissa, pediu para ser identificada apenas pelo seu nome do meio, Marie. Ela contou que foi deserdada por seus pais quando o amante de um parceiro a entregou como BDSM. "Eles ficaram fora de si", disse. "Eu acho que eles estavam preocupados se eu iria me machucar."

Ambientes acolhedores

Para os praticantes de BDSM que encontram hostilidade pelo mundo afora, no entanto, há vários ambientes acolhedores. No Paddles, há paredes pretas e um mural com a caricatura de uma mulher com botas vermelhas na altura das coxas e um salto agulha nas costas de um homem. O bar, chamado “Chicotes e Lambidas”, não vende álcool, mas café, refrigerantes e sorvetes italianos, dando ao ambiente uma sensação inesperadamente saudável. O oposto foi a exibição de palmatórias e outros equipamentos à venda. Vários cantos do clube mostravam correntes, gaiolas e bancos onde os participantes podiam se juntar para quaisquer brincadeiras que quisessem fazer de comum acordo.

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O "sadomasoquismo light" dos livros "Cinquenta Tons", com 65 milhões de cópias no mundo, ajudaram a trazer as práticas BDSM para o debate


Se ignorarmos os gritos e gemidos ocasionais, poderia ser um encontro de qualquer grupo com um hobby em comum

Escondidos em uma sala, um homem e uma mulher estavam literalmente brincando com fogo. A prática envolvia uma substância inflamável colocada em pontos estratégicos do corpo dela, incendiados em rajadas rápidas e dramáticas. Em outra área, decorada para parecer uma masmorra, um homem de meia-idade estava atacando as costas nuas de uma mulher de meia-idade com um chicote. Relações sexuais e sexo oral não são permitidos no Paddles, mas muitas pessoas estavam sem camisa, misturando-se confortavelmente sem demonstrar constrangimento.

O público era diverso em faixa etária e etnia, e o clima era amistoso e para cima. Se ignorarmos os gritos e gemidos ocasionais e tirarmos os brinquedos exóticos do cenário, poderia ser um encontro de qualquer grupo com um hobby em comum, embora as fotos fossem proibidas e os participantes se identificassem por pseudônimos.

Novatos

"Uma em cada cinco pessoas que nos procuram hoje em dia são novatos que dizem que a leitura de "Cinquenta Tons" provocou algo dentro deles, e eles decidiram explorar", disse um homem que se identificou como Viktor, de 49 anos, que trabalha no ramo de marketing e é um dos fundadores da DomSubFriends, um grupo de conscientização sobre BDSM que organizou uma palestra sobre o ciúme naquela noite. "No começo eu pensei: 'Eles estão invadindo meu BDSM'", disse. "Mas depois eu pensei, 'Não, são mais pessoas gostando."'

Lojas de fetiche, como a Purple Passion/DV8, que vendem corda, pás e outros apetrechos aos praticantes de BDSM, também estão recebendo mais visitas. "Sempre tivemos pessoas que vêm para conhecer, mas agora há muito mais gente experimentando as coisas", disse Lolita Wolf, que trabalha atrás do balcão e dá aulas intituladas "escravidão iniciante com corda" e "como brincar com agulhas" na loja.

BDSM virtual

Para aqueles que não estão prontos para explorar o universo BDSM na vida real, sites de encontros, como o Alt.com, e redes sociais, como a FetLife, permitem às pessoas que o façam a partir de suas próprias casas ou dispositivos móveis. Fundada em 2008 e com sede em Vancouver, British Columbia, a FetLife teve 700.000 novos membros no ano passado, elevando sua participação total para mais de 1,7 milhões, de acordo com Susan Wright, gerente de comunidade do site, bem como porta-voz da Coalizão Nacional de Liberdade Sexual, um grupo sem fins lucrativos com sede em Baltimore, que está trabalhando para aumentar a consciência das pessoas e defender os seus direitos.

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É compreensível que as pessoas com preferências sexuais tidas como exóticas procurem o refúgio anônimo da Internet; suas preferências podem virar um problema em batalhas de custódia (mesmo se ambos os pais participavam) ou contribuir para perder um emprego. Valerie Branco, uma das fundadoras do Fundo de Defesa Legal da Liberdade Sexual, um grupo sem fins lucrativos baseado em Sharon, Massachusetts, nos Estados Unidos, relembra o caso de um homem cuja ex-mulher tentou mudar os termos da guarda compartilhada quando soube do interesse dele em sexo bizarro através de seu blog.

Fundada em 1997, a coalizão tem feito lobby para que a Associação Americana de Psiquiatria atualize as definições de certas práticas sexuais no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, retirando a classificação que as torna "patologias". "Somos pessoas perfeitamente normais, exceto pelo fato de gostarmos de sexo bizarro", disse Wright, 49 anos, uma escritora de ficção científica que foi casada 19 anos. "Nós não deveríamos ser discriminados".

O grupo também mantém uma lista de contatos de médicos e conselheiros espirituais com maior compreensão do universo BDSM. Alguns terapeutas dizem que "algo está errado com você, isso é uma patologia", disse Charley Ferrer, um psicólogo clínico que trabalha em Manhattan e Staten Island e é autor de "BDSM: The Naked Truth" ("BDSM: A Verdade Nua e Crua"). Essa percepção é reforçada pelo protagonista de "Cinquenta Tons", Christian Grey. " A maioria das pessoas olha para o BDSM como sendo algo abusivo. 'Como você pode dizer a alguém para batê-lo e ser feliz com isso?' Mas violência doméstica e práticas de dominação e submissão são totalmente diferentes".

Muitos das comunidades de BDSM veem a conscientização como uma ferramenta essencial para combater suposições e preconceitos, bem como para a criação de melhores práticas entre os participantes. E muitas sugerem que a abertura e negociação exigidas pelas práticas, em vez de encorajar a crueldade, ajuda a fazer relações mais fortes e respeitosas.

Charley Ferrer disse que seus clientes BDSM tendem a ser melhores em termos de comunicação. Alguns casais elaboram contratos, como E.L. James romantizou em "Cinquenta Tons". "No mundo baunilha (denominação usada pelos praticantes de BDSM em relação aos casais com preferências sexuais ortodoxas), você espera seu parceiro estragar alguma coisa antes de definir as regras. "Na relação dominante/ submisso, você está se comunicando constantemente", acrescentou. "Na comunidade dominadores/ submissos, há um nível tão elevado de comunicação que os casais duram muito mais tempo."

Lee Harrington, de 33 anos, educador e autor (com Mollena Williams) de “Playing Well With Others: Your Field Guide to Discovering, Exploring and Navigating the Kink, Leather and BDSM Communities" ("Brincar Direito com os Outros: Seu Guia Prático para Descobrir, Explorar e Navegar por Comunidades BDSM", escolheu viver de forma tão aberta quanto possível desde que começou na cena, em Seattle. Ele disse que até levou sua mãe a alguns eventos kinky e também vê um momento em que as pessoas da cena vão encontrar uma maior aceitação, mas não tem certeza de que isso vai acontecer tão rápido. "Estou ansioso por isso", disse ele. "Mas acho que vai ser amanhã por causa de 'Cinquenta Tons'? Não."

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