Em encontro de psicólogos, representante de site de encontros defendeu algoritmo para encontrar parceiro e rebateu críticas dos colegas

NYT

Na busca pelo amor verdadeiro, preencher um questionário online seria mais científico do que rezar para Santo Antonio?

Para os psicólogos do eHarmony, site de relacionamentos, sim. O serviço oferece um algoritmo computadorizado que promete ajudar os usuários a encontrar sua alma gêmea. Mas essa afirmação foi criticada numa revista de psicologia no ano passado por uma equipe de pesquisadores acadêmicos, que concluíram que "nenhuma evidência convincente sustenta as alegações do site de que seus algoritmos matemáticos funcionam".

>>> Veja abaixo as variáveis do algoritmo reveladas pelo pesquisador do site <<<

Em resposta, o principal cientista e pesquisador do eHarmony, Gian C. Gonzaga, foi ao SPSP – o grande encontro anual da Sociedade de Psicologia da Personalidade e Social, organizado recentemente em Nova Orleans. Armado com uma apresentação de PowerPoint, Gonzaga enfrentou um salão repleto de pesquisadores ávidos pelos segredos do eHarmony.

Ao contrário de outros serviços de formação de casais, o eHarmony não permite que os clientes procurem parceiros por conta própria. Eles pagam até US$ 60 por mês para receberem combinações baseadas nas respostas a um longo questionário, que atualmente possui cerca de 200 itens. A empresa coletou respostas de 44 milhões de pessoas, e diz que suas combinações levaram a mais de meio milhão de casamentos desde 2005.

Gonzaga, um psicólogo social que antes trabalhava num laboratório de pesquisa do casamento na Universidade da Califórnia em Los Angeles, afirmou que o eHarmony não lhe permite divulgar as fórmulas, mas ofereceu algumas revelações. Ele disse que seu algoritmo mais recente forma casais focando em seis fatores:

- Nível de afabilidade – ou, falando de outra forma, quão briguentas as pessoas podem ser.

- Preferência por proximidade com um parceiro – quanta intimidade emocional cada um deseja e quanto tempo cada um gosta de passar com um parceiro.

- Grau de paixão sexual e romântica.

- Nível de extroversão e abertura a novas experiências.

- Grau de importância da espiritualidade.

- Grau de otimismo e felicidade de cada um.

Quanto maior a similaridade entre duas pessoas nesses fatores, melhores suas probabilidades, explicou Gonzaga – e apresentou evidências, ainda não publicadas, de diversos estudos no eHarmony Labs. Um estudo, que acompanhou mais de 400 casais formados pelo eHarmony, descobriu que a pontuação de seus questionários iniciais era relacionada com a satisfação dos dois com seu relacionamento quatro anos mais tarde.

"É possível", concluiu Gonzaga, "derivar empiricamente um algoritmo de formação de casais que prevê o relacionamento de duas pessoas antes de elas se conhecerem".

“Efeito pessoa”

Não é bem assim, responderam os críticos na sala. Eles não duvidaram que fatores como afabilidade possam prever um bom casamento. Mas isso não significa que o eHarmony tenha encontrado o segredo da formação de casais, disse Harry T. Reis, da Universidade de Rochester, um dos autores da crítica do ano passado.

"Essa pessoa afável que está com você iria, na verdade, se dar muito bem com qualquer pessoa desta sala", afirmou Reis a Gonzaga.

Amor online: para os críticos, falta transparência nos resultados apresentados pelo site de encontros
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Ele e seus coautores argumentaram que os resultados do eHarmony podiam meramente refletir o conhecido "efeito pessoa": uma pessoa agradável, otimista e nada neurótica tem mais chances de se dar bem em qualquer relacionamento. Mas a pesquisa demonstrando esse efeito também mostrou que é difícil fazer previsões com base no que se chama de "efeito diádico" – o grau de similaridade entre dois parceiros.

"Na literatura existente, componentes de similaridade são notoriamente fracos para explicar a satisfação num relacionamento", argumentou Paul W. Eastwick, da Universidade do Texas em Austin. "Por exemplo, o que realmente importa para a satisfação em meu relacionamento é se eu sou neurótico e, em menor grau, se minha parceira é neurótica. Nossa similaridade na neurose é irrelevante".

Gonzaga concordou que pesquisadores anteriores não conseguiram prever a satisfação com base em similaridades entre parceiros. Segundo ele, porém, isso ocorreu porque eles não haviam focado nos fatores identificados pelo eHarmony, como o nível de paixão sexual, onde era especialmente importante que os parceiros fossem compatíveis. E embora alguns traços, como a afabilidade, possam ajudar qualquer relacionamento, é ainda melhor quando os parceiros são similares.

"Digamos que você mensure a afabilidade numa escala de 1 a 7 para cada parceiro", explicou Gonzaga. "Um casal com pontuação combinada de 8 tem mais chances do um casal com uma pontuação menor, mas também é importante saber como eles somaram os 8 pontos. Um casal com dois 4 está melhor do que um casal com um 1 e um 7".

Grupo controle

Sua afirmação deixou os críticos levemente intrigados – mas nada convencidos.

"Se os efeitos didáticos são reais, e se o eHarmony pode estabelecer esse ponto de forma válida, isso seria um grande avanço para nossa ciência", afirmou Reis. Mas ele e seus colegas disseram que o eHarmony não havia conduzido, e muito menos publicado, o tipo de estudo necessário para provar a eficácia de seus algoritmos.

"Eles realizaram alguns estudos, sem revisão por pares, que examinam casais existentes", declarou Eli J. Finkel, da Universidade Northwestern, principal autor do artigo crítico do ano passado. "Mas é crucial lembrar que não é isso que o algoritmo pretende fazer. O algoritmo deseja pegar pessoas que nunca se conheceram e formar casais".

Segundos os críticos, verificar a eficácia do algoritmo exigiria um estudo clínico aleatório e controlado – como os conduzidos por empresas farmacêuticas. Escolha alguns indivíduos aleatoriamente para serem combinados pelo algoritmo do eHarmony, e coloque alguns num grupo de controle para formarem casais aleatoriamente; em seguida, acompanhe os relacionamentos resultantes para ver quem fica mais satisfeito.

Gonzaga explicou ter dúvidas éticas sobre juntar casais arbitrariamente, e que um estudo como esse lhe parecia desnecessário frente aos outros estudos do eHarmony.

"Temos evidências exclusivas mostrando que casais com grande compatibilidade são mais satisfeitos com seus relacionamentos", afirmou Gonzaga. "Isso nos deixa seguros de que fizemos bem nosso trabalho."

Quer os algoritmos funcionem ou não, os sites de encontros oferecem muitos parceiros em potencial, e parte da triagem ocorre simplesmente pela autosseleção. Afinal, é preciso um grande esforço para se submeter ao processo de registro – principalmente quando ele exige responder a duzentas perguntas.

"Se eu fosse solteiro, estaria usando um serviço como o eHarmony, mas com meus olhos bem abertos", afirmou Reis. "Quem acha que esses sites realmente sabem o que é melhor para você está cometendo um grande erro. Mas eles estão oferecendo acesso a pessoas realmente interessadas num relacionamento, e não em apenas brincar. Eu diria a mim mesmo que vou conhecer 100 mulheres nos próximos seis meses, e se encontrar uma, então ficarei feliz. Onde mais eu poderia conhecer 100 mulheres?"

* Por John Tierney


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