Lançando o “Livro do amor”, a psicanalista diz ao iG que rejeita a monogamia e explica por que amar mais de uma pessoa não significa traição. Comente

Regina Navarro:
George Magaraia
Regina Navarro: "As pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois"

Seus conceitos às vezes causam polêmica até entre os mais liberais. Ela prega que é possível amar mais de uma pessoa, critica a monogamia nos casamentos e rejeita firmemente o termo traição para se referir a relacionamentos extraconjugais. Sobre o uso de vibradores, ela é direta: “Ninguém pode comparar um dedinho, por melhor que seja, com um vibrador”.

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Assim é a psicanalista Regina Navarro Lins, autora de “O livro do amor”, lançado este mês pela Editora BestSeller. Nessa sua nova obra, dividida em dois volumes, ela tenta compreender o amor na contemporaneidade, o que resultou numa pesquisa de cinco anos, da pré-história até os dias atuais, fazendo cruzamentos entre passado e presente.

Segundo ela, duas coisas a surpreenderam ao longo do estudo. A primeira foi a opressão que a mulher sofre desde a instalação do sistema patriarcal, há cinco mil anos. “O patriarcado instaurou a propriedade privada e o homem tornou-se obcecado pela paternidade para não deixar herança para o filho de outro. Nisso, a mulher foi aprisionada de maneira terrível”, conta a feminista convicta.

O segundo aspecto que mais chamou sua atenção foi a repressão da sexualidade ocorrido ao longo do período pesquisado. “No século 19, as pernas dos pianos nas casas eram cobertas com capas porque achavam que elas tinham semelhanças com as pernas de uma mulher”, diz.

A entrevista ao iG aconteceu em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. No bate-papo, ela criticou mulheres que não transam no primeiro encontro, explicou por que elas fingem ter orgasmos, disse que o sistema patriarcal foi por terra desde o surgimento da pílula e defendeu a ideia de que a mulher deve dividir a conta do motel. Relações extraconjugais também entraram na pauta, obviamente. “Elas acontecem porque variar é bom. Todo mundo gosta. Simples assim”.

Regina Navarro Lins segura os dois volumes do
George Magaraia
Regina Navarro Lins segura os dois volumes do "Livro do amor": cinco anos de pesquisa histórica

iG: O sistema patriarcal acabou ou está com os dias contados?
Regina Navarro Lins: A pílula anticoncepcional foi o golpe fatal. Antigamente, a mulher tinha quantos filhos o homem quisesse, passava a vida toda amamentando. A pílula desassociou o sexo da criação e a mulher se livrou da gravidez indesejada. No patriarcado, os papéis sempre foram bem definidos. Aos homens: força, sucesso, poder e coragem. Às mulheres: ser meiga, gentil, suave, submissa e cordata. Com o desmoronamento do sistema patriarcal causado pela pílula, a fronteira entre o masculino e o feminino está se dissolvendo.

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iG: Os homens estariam mais femininos? As mulheres, mais masculinas?
Regina Navarro Lins: Dos anos 70 pra cá, os homens começaram a assumir comportamentos que antes só eram permitidos às mulheres. Dão mamadeira aos filhos, levam para a escola, estudam junto. Na minha infância, homem não podia usar xampu. Aquele que usasse era mal falado. O máximo que podia usar era sabão de coco. Na verdade, não existe mais masculino e feminino.

iG: Isso desembocaria em uma sociedade bissexual?
Regina Navarro Lins:
Acho que, à medida que essa fronteira está se dissolvendo, a tendência é que as pessoas busquem o amor muito mais pelas características de personalidade em comum do que em função do gênero do parceiro. E você já observa isso nas meninas adolescentes que ficam com outras meninas. Caminhamos para essa fluidez, mas isso pode demorar 30 ou 40 anos. Tendência de comportamento, não é para o próximo verão.

Regina Navarro Lins:
George Magaraia
Regina Navarro Lins: "Estamos acostumados a achar que casamento quando dá certo é para a vida toda"

iG: Essas mudanças vão provocar uma crise de identidade nos homens?
Regina Navarro Lins:
Desde pequeno, o homem tem que provar que é macho. Se um menino de 7 anos cai, chora e corre para o colo da mãe, vira alvo de chacotas. Com medo de ser chamado de maricas, começa negando a necessidade que tem da mãe. O homem vai se desenvolvendo como se não precisasse da mulher, mas, quando entra em uma relação estável, abaixa a guarda e vira um bebê nas mãos da esposa. Aquela coisa reprimida aparece. Os homens estão em crise porque eles têm que desconstruir esse masculino a que foram condicionados. O sistema patriarcal também oprime os homens. Você sempre precisar exibir força, sucesso, poder, e nunca broxar é desesperador!

iG: Você costuma criticar o amor romântico. Não gosta de receber flores e declarações de amor?
Regina Navarro Lins:
O problema não é mandar flores ou jantar à luz de velas. Isso é ótimo! O problema são as expectativas que o amor romântico traz. Eu as chamo de "projeto cilada". Cilada porque é calcado na idealização. Você conhece uma pessoa, atribui características que ela não tem e depois passa a vida inteira querendo mudá-la. Inventou quem você quis. Ele também traz ideais de que quem ama não sente tesão por mais ninguém. O amor romântico só tem olhos para o amado. Você vai ter todas suas necessidades satisfeitas pelo amado. Há uma complementação total. Essas são as expectativas do amor romântico e, por isso, eu o critico tanto.

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iG: E qual seria o novo modelo de casal, sem o amor romântico?
Regina Navarro Lins: Também seria baseado no amor, mas você poderia amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Acredito que cada vez mais menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois. Mais pessoas vão optar por relações múltiplas.

iG: A monogamia sairia de cena, então.
Regina Navarro Lins: As pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois. Ninguém tem que se preocupar se o outro transou ou não com alguém. As pessoas devem responder apenas duas perguntas. Eu me sinto amada (o)? Eu me sinto desejada (o)? Se você disser sim para as duas perguntas, o que o outro faz quando não está com você não diz respeito a você. É a forma mais inteligente e respeitosa de viver. É uma indelicadeza querer saber da vida do outro! Que coisa metida, né? As pessoas têm que estar juntas pelo prazer da companhia, porque têm projetos em comum.

Regina Navarro Lins:
George Magaraia
Regina Navarro Lins: "Ciúme é limitador para quem sente e para quem é alvo"

iG: Para você, o que é fidelidade?
Regina Navarro Lins: Fidelidade não tem nada a ver com sexo! (Irritada) Essa palavra traição é a coisa mais inadequada que já vi alguém usar para se referir à relação extraconjugal. Ser fiel no casamento é você estar com a pessoa porque gosta. Não estar com ela porque quer dar um golpe, tirar o seu dinheiro. Você não fala mal dela. Alguns profissionais da minha área dizem que a mulher tem relações fora do casamento porque o relacionamento vai mal e ela se sente abandonada. Ninguém fala o mais comum. As relações extraconjugais acontecem porque variar é bom. Todo mundo gosta. Simples assim (risos)!

iG: Nessa lógica de ter vários parceiros, não seria melhor então ser um eterno solteiro? Assim você não cai na armadilha do amor romântico...
Regina Navarro Lins: Não tem armadilha. O único motivo que a gente casa é para ser fiel e exclusivo? (Indignada) Ou casa para construir uma vida legal juntos, ter projetos em comum, porque gosta da companhia, porque gosta de fazer sexo? Ficar solteiro é uma bobagem. Mas se você vai ter relação extraconjugal no seu casamento é outra história.

iG: Como ficam os filhos nesses relacionamentos abertos? Não perdem o referencial?
Regina Navarro Lins: Não perdem nada! Os filhos não nascem geneticamente programados para ver o pai e a mãe vivendo juntos. A criança só precisa de três coisas: ser amada, respeitada e valorizada. Ela vai absorver o que está na cultura que ela vive. Divórcio, por exemplo, não foi feito para a criança sofrer. Ela sofre por causa da incompetência dos pais que falam mal um do outro, fazem chantagens. Se os pais são amigos e não fazem drama, a vida segue. Ninguém tem que ficar a vida toda com o outro. A gente fica enquanto está bom.

Regina Navarro Lins:
George Magaraia
Regina Navarro Lins: "Filhos não nascem geneticamente programados para ver pai e mãe vivendo juntos"

iG: Você está no seu terceiro casamento. O que não deu certo nos anteriores?
Regina Navarro Lins: É um equívoco dizer que um casamento de dez anos não deu certo. Dizem isso porque imaginam um casamento para a vida toda. Isso ocorria quando as pessoas morriam cedo. Agora as pessoas morrem com 100 anos! É um suplício obrigar alguém a ficar 70 ou 80 anos casados (risos). Já não se acha mais graça nenhuma. Estamos acostumados a achar que quando dá certo é para a vida toda. No primeiro casamento, fiquei oito anos. Sendo três de namoro e cinco de casamento. Tempo pra caramba! Do meu segundo marido, sou amiga. Uma pessoa ótima, mas virou irmão. Não queria ficar dormindo abraçadinho, de conchinha, e só.

iG: Você acha que uma ida ao sex shop pode ajudar a apimentar uma relação morna?
Regina Navarro Lins: Sex shop é importante porque que lá existem coisas que proporcionam mais prazer. Por exemplo, se uma mulher vai ter relações sexuais com o parceiro e, enquanto ele está penetrando, ela pega um vibrador e põe no clitóris, é evidente que essa mulher vai ter um orgasmo mais intenso do que se tiver só a penetração e um dedinho no clitóris. Ninguém pode comparar um dedinho, por melhor que seja, com um vibrador (risos). É algo objetivo e físico (risos)! Mas não acho que sex shop ajuda a apimentar relação. Se você não tem tesão por uma pessoa, não adianta. Tem gente que diz que quando o tesão acaba tem que ser criativo. Se pendurar no lustre vai dar tesão? O que é ser criativo? Isso é um clichê. O que leva à vontade de ser criativo é justamente o contrário. Quando você está com muito tesão, você fica criativo. Quando não tem tesão, você quer dormir.

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iG: E como você avalia o ciúme?
Regina Navarro Lins: Ciúme é limitador para quem sente e para quem sofre, mas nossa cultura o favorece. Ela diz que quem ama sente ciúme. Temos que nos livrar dessas crenças e moralismos para viver melhor, mas isso não é simples. É preciso coragem.

iG: De que forma?
Regina Navarro Lins: Numa festa, a moça fica de beijos e mãos aqui e ali. Na saída, o rapaz a convida para um motel e ela diz que não gosta de fazer sexo no primeiro encontro. (Eleva o tom) Mentira! Ela está roxa de tesão! Não faz por submissão ao homem, medo de que ele não ligue no dia seguinte. E o pior é que ainda tem muito homem babaca que está nessa. Quando ele se nega a ficar com a mulher porque ela transou no primeiro encontro, está dizendo que só o homem pode exercer a sexualidade livremente. Só uma mulher muito idiota fica com um homem desses.

Regina Navarro:
George Magaraia
Regina Navarro: "As pessoas têm que estar juntas pelo prazer da companhia, porque têm projetos em comum"

iG: Por que as mulheres ainda fingem ter orgasmo ?
Regina Navarro Lins: Os homens têm uma ansiedade muito grande em relação a isso. Antigamente, não era assim. A mulher tinha que ser passiva e ele nem se preocupava. Quando a mulher começou a ficar independente e a gostar de sexo, o homem começou a ficar aflito. É muito comum a mulher fingir que teve um orgasmo porque aprendeu que tem que corresponder à expectativa do homem. Ela acha que se não tiver orgasmo o homem vai ficar chateado e procurar outra.

iG: Os contos de fada reforçam esses conceitos?
Regina Navarro Lins: (Irritada) Eles são maléficos e nocivos! Deveriam ser banidos. Passam para as meninas a ideia de que elas só podem melhorar de vida se um homem salvá-las. Os contos de fadas não passam um incentivo para elas desenvolverem seus talentos e suas capacidades. As meninas têm que estar sempre em coma ou então esperando o sapatinho caber no pé para corresponder às expectativas do homem para ser salva.

iG: Por que ainda causa polêmica a mulher dividir ou não a conta do motel?
Regina Navarro Lins: Quando o sistema patriarcal se instalou, a mulher só tinha o corpo para fazer frente a tanta opressão. Controlando as necessidades sexuais dos homens, elas ganhavam presentes. Por isso quando você pergunta se as mulheres devem dividir a conta do motel com o homem elas ficam indignadas. A herança vem daí. O discurso é: divido a conta de restaurante, cinema, teatro, mas motel não. Por que não? Porque ainda existe a ideia de que ela está dando o corpo e tem que ter algo em troca. A conta do motel deve sim ser dividida. É claro que se um tem mais dinheiro naquele dia e paga, tudo bem. Mas a questão é: o homem tem que pagar sempre só porque é homem? As mulheres reagem de uma maneira tão absurda em relação a isso que vemos como nossa estrada ainda é longa...

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Serviço:

O livro do amor: volume 1 - Da pré-história à renascença
Regina Navarro Lins
364 páginas
R$ 29,90
Editora BestSeller

O livro do amor: volume 2 - Do iluminismo à atualidade
Regina Navarro Lins
364 páginas
R$ 29,90
Editora BestSeller 

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