Nos EUA, óleos, massageadores e vibradores são vendidos em redes de farmácias. Especialista explica que esses produtos não substituem o sexo

Cada vez mais mulheres optam por alguns produtos que aumentem seu libido. Isso porque muitas delas simplesmente não conseguem chegar ao orgasmo somente com a relação sexual. Segundo o ginecologista e obstetra Domingos Mantelli, a causa pode ser hormonal ou emocional e necessita de tratamentos.

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Para o especialista, o estresse do dia a dia com trabalho, tarefas de casa e ocupação com a família pode acabar diminuindo a libido, o que faz com que as mulheres recorram à esses produtos. "Se ela tiver a diminuição da carga hormonal, também terá a diminuição da libido.", conta. 

Mulheres apostam em produtos para aumentar a libido
Getty Images/Photodisc
Mulheres apostam em produtos para aumentar a libido


“Tenho 45 anos e sexo para mim não conta mais”, diz B., que é professora em Nova York ao jornal "New York Times". Ela pede que última inicial do seu nome seja mencionada. Ela raramente tem desejo suficiente para iniciar uma relação com o parceiro, com quem vive há 10 anos, e não chega ao orgasmo durante o ato.

A professora diz que  gostaria que as coisas fossem diferentes. "Seria bom não me sentir sexualmente morta".

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O desinteresse de B. está longe de ser incomum e o mercado começa a reagir. Na ausência de um equivalente feminino de medicamento contra impotência, como o Viagra, Cialis e Levitra, as mulheres estão recorrendo a outros estímulos, como lubrificantes, todos os tipos de gel, óleos de massagem, suplementos nutricionais e fitoterápicos e vibradores.

Os produtos que prometem aumentar o prazer

Nos Estados Unidos, esses produtos estão sendo encontrados em todas as grandes drugstores e redes de farmácia, lado a lado com esparadrapos e ataduras, mas para Domingos eles não são a solução. "Eles ajudam, mas não substitui o próprio sexo e as preliminares".

O KY Intense, um gel estimulante feminino que pretende aumentar a sensibilidade do clitóris, é vendido na Walgreens, no Wal-Mart e na Rite Aid, segundo o jornal americano. O ON, da Sensuva, um óleo estimulante, pode ser encontrado em 640 lojas da GNC em todo os Estados Unidos. A Intimina, da LELO, uma "linha de produtos íntimos" que fabrica massageadores, incluindo bolinhas para praticar exercícios de Kegel e de pompoarismo, e "cosméticos íntimos", é vendida nas farmácias Pharmaca Integrative. E o óleo essencial que é vendido como sendo altamente estimulante, Zestra, era comercializado 1.800 lojas da Walmarts em 2012. Dois anos antes, apenas 880 lojas da rede comercializavam o produto.

Mas será que lubrificantes e óleos estimulantes funcionam mesmo?

"A mulher média comprometida em um relacionamento tem relações sexuais uma vez por semana", diz Rachel Braun Scherl, presidente do Semprae Laboratories, fabricante do Zestra,  ao "The New York Times" que contratou Kris Kardashian Jenner como porta-voz. "Nossa ideia não é fazer com que as mulheres tenham mais relações sexuais – queremos ajudá-las a apreciar o sexo, não importa a quantidade de vezes”.

Não existem estudos suficientes que atestem se esses produtos funcionam mesmo. Um estudo randomizado publicado em 2010 no The Journal of Marital and Family Therapy constatou que as mulheres que usaram o óleo Zestra reportaram sentir mais desejo, excitação e satisfação do que aquelas que usaram um placebo. O KY afirma que 70% das mulheres que participaram de uma pesquisa sobre o produto concordaram que o gel Intense aumentou sua excitação, a intensidade do orgasmo, a satisfação e o prazer, mas a pesquisa não foi publicada em uma publicação médica.

Para Erin Drought, de 28 anos, consultora em tecnologia da informação de Edmonton, Alberta, cuja libido sumiu depois que ela começou a tomar remédios para tratar o transtorno bipolar, usar o Zestra foi como “ligar um interruptor de luz”. Ela tropeçou no Zestra em um supermercado e resolveu experimentar. No início, não contou ao marido porque "não queria dar esperanças a ele". Mas funcionou.

"Foi assim quando comprei óculos novos e consegui finalmente ver as coisas de longe. Pensei: 'nossa, isso é o que sentimos quando conseguimos ver'", fala ao jornal. 

Muitos desses produtos estimulantes usam "óleo de hortelã ou alguma variação. A ideia é fazer com que a mulher se sinta excitada", diz Bat Sheva Marcus, diretora clínica do Centro Médico de Sexualidade Feminina de Manhattan e Purchase, Nova York. "Algumas pessoas sentem que eles dão uma sensação de queimação, algumas acham que eles são bastante estimulantes, outras não sentem nada."

Pela falta do desejo sexual, muitas mulheres acabam se desinteressando pelo sexo
iG Delas
Pela falta do desejo sexual, muitas mulheres acabam se desinteressando pelo sexo


O que está por trás do desejo sexual das mulheres?

Em primeiro lugar, a questão mais difícil é definir o "aumento o desejo sexual". Para os homens, a resposta é óbvia; para as mulheres, no entanto, a pergunta tem que ser colocada de outra forma.

“É absoluta falta de desejo, existe uma diminuição do desejo ou ela não consegue chegar ao orgasmo? É preciso separar cada uma dessas questões", disse Cheryl L. Perlis, ginecologista de Lake Bluff, Illinois. "Algumas mulheres têm impedimentos físicos para chegar ao orgasmo, por exemplo, independentemente da sua idade."

Segundo um relatório publicado no The Journal of the American Medical Association em 1999, 43 por cento das mulheres entre 18 e 59 anos convivem com alguma forma de disfunção sexual: falta de desejo, de excitação, dificuldade de chegar ao orgasmo ou dor durante a relação sexual.

Contudo, embora esse número seja amplamente citado por médicos e campanhas de marketing, ele pode ser contestado. Liz Canner, diretora do documentário "Orgasm Inc.", de 2009, observa que os dados foram extraídos de uma pesquisa sociológica realizada no início de 1990 que tentava descobrir como era a vida sexual das pessoas. "O objetivo do estudo não era medir o número de mulheres que sofriam de doenças", disse ela.

Em um artigo publicado em 2006 no periódico PLoS Medicine, Leonore Tiefer, terapeuta sexual que é professora adjunta de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, argumentava que a disfunção sexual feminina seria uma construção cultural, um "caso clássico de alarmismo quanto a medicamentos alimentado pela indústria farmacêutica e outros agentes da medicalização", incluindo profissionais da saúde e jornalistas.

Marcus, do Centro Médico de Sexualidade Feminina, discorda. "A disfunção sexual feminina é de fato um problema", disse ela. "Dizer que as mulheres estão reclamando de sua vida sexual porque as empresas farmacêuticas lhes disseram para fazê-lo é realmente um insulto para as mulheres."

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Para o Dr. Michael L. Krychman, ginecologista de Newport Beach, Califórnia, especialista em medicina sexual, "essas queixas sexuais são reais, não são imaginadas. As mulheres estão sofrendo em silêncio e estão a procura de soluções".

Segundo ele, uma das razões pelas quais os homens não renovam suas prescrições de Viagra é que eles não estão conseguindo lidar com as necessidades de suas parceiras sexuais.

A proliferação de produtos – e a ênfase na solução de um problema que é extremamente difícil de definir – deixa muita gente preocupada. Será que estamos induzindo as mulheres e a se concentrarem em pontos problemáticos e a colocarem pressão sobre si próprias para terem um bom desempenho sexual?

"O que eu não gosto é que estamos explorando esse desejo vendendo produtos femininos que podem não ser a melhor coisa para o nosso corpo e talvez não funcionem", disse Tammy Nelson, terapeuta especializada em sexo e relacionamentos de Connecticut, autora de "Getting the Sex You Want" ("Fazendo o sexo que você quer", em tradução livre), publicado pela Editora Quiver em 2008.

Para Marcus, "exatamente como tudo que tem a ver com sexo, essa ampla gama de produtos femininos de estímulo sexual funciona para uns e não para outros". "Eles funcionam para problemas sérios? Não. Mas tornam a vida sexual mais divertida? Talvez. Certamente não há mal em experimentar", acrescentou ela.

Por que homens têm mais libido que a mulher?

Não, isso não é um mito. O homem realmente tem mais libido que a mulher, assim como ele tem muito mais facilidade para chegar ao orgasmo. Segundo o ginecologista Domingos Mantelli, isso se deve a uma questão hormonal.

"Isso acontece porque os níveis de testosterona do homem são extremamente mais elevados do que a mulher", explica o especialista.

Como aumentar a libido da mulher

Para o especialista , é importante que tenha uma conversa entre a mulher e o parceiro para que ela explique o que está acontecendo e mostre que isso não é falta de amor ou sentimento. "Uma falta de desejo muitas vezes é algo físico e buscar orientação e ajuda com profissional é extremamente importante nessa hora", comenta.

O homem também pode ajudar a mulher a aumentar seu libido e ainda ajudar no orgasmo dela. A psicóloga e sexóloga Priscila Junqueira conta que o primeiro passo é  fazer com que sua parceira se sinta especial, até porque nada melhor do que uma mulher com a autoestima lá em cima, não é mesmo?

“Algumas mulheres chegam ao meu consultório dizendo que as preliminares funcionam só na teoria, pois seus parceiros não tem paciência para beijá-las e tocá-las como elas desejam", conta. Por isso, não se esqueça: a pressa é inimiga da perfeição. 

Ainda existe um tabu muito grande em relação a masturbação feminina, mas seus parceiros devem saber que a prática pode ajudar muito a mulher. Por isso, é importante que o homem estimule a mulher a conhecer seu próprio corpo e descobrir seus estímulos vindos do toque.

Depois das preliminares, Priscila explica que as posições sexuais também são extremamente importantes, principalmente para o orgasmo. E ela dá a dica: "não podemos generalizar, mas a maioria das mulheres que chegam até mim relatam que as posições que permitem maior fricção do clitóris, como por exemplo, a mulher “por cima” são as preferidas quando o assunto é um bom orgasmo. Então, ajude sua parceira a descobrir a melhor posição pra ela e pratiquem".

Por último, mas não menos importante, ajude sua parceira a cuidar-se fisicamente e emocionamente. "A saúde física e emocional são fundamentais para um bom orgasmo", revela.

É extremamente importante a mulher buscar profissionais das duas áreas para sentir-se protagonista da sua vida e não responsabilizar apenas o homem pela falta da libido e do orgasmo.