Já pensou em aproveitar a chegada da primavera para incrementar seus pratos? Veja dicas de especialista para usar flores na alimentação sem erro

Chefes de cozinha são cientes das possibilidades diversas e incluem as cores e os sabores florais aos seus pratos
Reprodução/Pixabay
Chefes de cozinha são cientes das possibilidades diversas e incluem as cores e os sabores florais aos seus pratos

Setembro está aí e, com ele, chega a primavera. A estação cheia de cores toma conta dos jardins, praças, calçadas... Fica tudo lindo, né? Mas, você já pensou em aproveitar o clima para colorir sua alimentação também? Que tal incrementar seus pratos com flores comestíveis, por exemplo?

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Isso mesmo, você não leu errado. Apesar de serem subutilizadas na alimentação, com pouca variedade realmente chegando aos nossos pratos, tais como a alcachofra, o brócolis e a couve-flor, as flores comestíveis podem ser uma boa opção alimentar, já que oferecem – não só cor e beleza aos pratos –, como também sabor e saúde para nosso dia a dia.

O legal é que elas podem substituir ou complementar aqueles temperos mais tradicionais, de ervas conhecidas, quando acrescentadas aos alimentos , de diversas maneiras. Segundo Deborah Gaiotto, especialista em flores comestíveis, as flores são alternativas ricas para dar sabor aos pratos, apresentando gostos que vão desde os adocicados, passando pelos cítricos, amargos e picantes. Algumas, por exemplo, chegam até a apresentar sabor semelhante ao das ostras. Curioso, não? Pois é. Como não bastasse, elas têm poucas calorias (cerca de 40 calorias por 100 gramas), e também oferecem vitaminas e antioxidantes ao corpo.

E se engana que se alimentar de flores é “invenção” contemporânea. Muito pelo contrário. Relatos históricos mostram que populações antigas já as utilizavam desde o ano 140 a.C, pelo menos. Na Inglaterra pré-Revolução Industrial, as mulheres costumavam fazer violetas odoratas cristalizadas para que fossem apreciadas com café ou chá. Além disso, muitos holandeses se alimentaram de tulipas durante o período da Segunda Guerra Mundial. Contudo, como percebemos, esse hábito foi sendo menosprezado ao longo dos anos – especialmente por causa da era dos produtos industrializados.

“É uma pena que nós tenhamos nos esquecido das flores em nossa alimentação. Isso aconteceu, principalmente, por causa da industrialização, pelos alimentos industrializados. Outra coisa que me deixa triste é ver que, quando utilizadas, elas só aparecem nos pratos como maneira de embelezá-los – e não são aproveitadas inteiramente”, diz Deborah.

Segundo Deborah Gaiotto, especialista em flores comestíveis, as flores são alternativas ricas para dar sabor aos pratos
Divulgação/Arquivo Pessoal
Segundo Deborah Gaiotto, especialista em flores comestíveis, as flores são alternativas ricas para dar sabor aos pratos

Muitos chefes de cozinha já são bastante cientes das diversas possibilidades das plantas, incluindo suas cores e sabores aos seus pratos; aliás, utilizando-as de forma primorosa. Por causa desse mercado da alta gastronomia , Deborah e sua família tiveram o  insight e iniciaram, há dez anos, a produção na Fazenda Maria, que fica na cidade de Tatuí, no interior paulista, onde cultivam mais de 200 tipos de flores, ervas e brotos – hoje, tudo produzido com manejo orgânico. A fazenda foi pioneira no País, inclusive, na oferta das flores para a alimentação.

“A Fazenda Maria começou atendendo os restaurantes de alta gastronomia em São Paulo. Há quatro ou cinco anos, começamos a construir a produção com manejo orgânico , o que foi trazido pela minha irmã. Hoje, já atendemos todo o Brasil, apesar de quase toda a demanda ficar concentrada na capital paulista mesmo. Atendemos restaurantes, buffets e, desde 2016, começamos a vender produtos para o público doméstico. Nossas verduras começaram a ser procuradas pelas pessoas, então criamos as chamadas ‘cestas naturais’, que vêm com legumes e frutas de outros produtores orgânicos, parceiros nossos”, conta.

Além disso, para incentivar a adoção das flores na alimentação e tirar o preconceito – e até o medo – que muitas pessoas ainda têm de comê-las, a especialista criou um canal no Youtube chamado “ Deborah na Fazenda , no qual dá dicas de como cultivar mudas, de como escolher as flores, além de dar receitas simples e rápidas. “Comecei o canal para informar as pessoas sobre a riqueza que as flores podem trazer aos pratos. É uma maneira de incrementar a alimentação, abrindo espaço à criatividade. Quero sensibilizar chefes de cozinha e pessoas comuns a utilizarem as flores – seja em saladas, omeletes, infusões, geleias ou massas”, elucida.

Diversidade

Você sabia que cerca de 80% das flores encontradas na natureza são comestíveis? A variedade é tão grande que fica difícil entender como deixamos passar tantas opções de alimentos e nos esquecemos de, quase completamente, incluir as flores em nossa alimentação. Algumas das mais conhecidas são a camomila e o hibisco – usadas em infusões. Além delas, as pessoas costumam conhecer a amor-perfeito, a capuchinha, as rosas e as calêndulas, que são flores encontradas em jardins e vasos. Contudo, existem aquelas flores de hortas como as de abóbora, abobrinha, chuchu (das quais utilizamos apenas os frutos, geralmente).

Que tal aproveitar a primavera e começar a colocar mais cor e sabor nas saladas, massas, iogurtes, omeletes?
Divulgação/Arquivo Pessoal
Que tal aproveitar a primavera e começar a colocar mais cor e sabor nas saladas, massas, iogurtes, omeletes?

Há ainda as plantas alimentícias não convencionais (chamadas de 'PANC'), que foram totalmente excluídas das cozinhas em algum momento da História – mas que são uma boa pedida para pratos mais gostosos. Entre elas, podemos citar tulipas, acácias, flores de ipês, boca-de-leão, orquídeas e violetas.

Cuidados: escolher e comprar

Antes de mais nada, vale lembrar que não é recomendado sair por aí comendo flores – sem cuidado e conhecimento. Claro, o número de opções comestíveis na natureza é maior do que aquelas que podem ser tóxicas e até mesmo letais, mas, é preciso muito cuidado.

Para começar, o ideal é consumir flores que sejam cultivadas por produtores que visam o plantio de plantas que serão utilizadas para a alimentação. Afinal, desse modo, as flores serão advindas do manejo orgânico, sem uso de agrotóxicos. Ademais, você terá certeza de que encontrará apenas opções que sejam inócuas. Desse modo, não é indicado consumir flores de floriculturas, por exemplo, pois elas contêm muitos produtos químicos – e podem estar contaminadas por metais pesados.

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Outra dica essencial é garantir que as flores estejam limpas para que não apresentem nenhum tipo de resíduo alheio. Lembre-se que as flores podem ter pólen, bichos e pigmentos e, por isso, as pessoas alérgicas devem redobrar os cuidados.

“A História e a Biologia nos ajudam, revelando o que já foi e é consumido por diferentes civilizações, também respondendo quais são perigosas ao ser humano, como é o caso da rosa-do-deserto, por exemplo", explica a especialista. "A princípio, plantas espinhosas ou com seiva, geralmente, são tóxicas. Aquelas que produzem flores brancas e azuis também, provavelmente, serão tóxicas. Ademais, plantas usadas por paisagismo, como a espada de são Jorge e a petúnia, também costumam ser tóxicas, portanto não é recomendado”, completa. 

Como introduzir na alimentação

Se você ainda não tem o costume de comer flores e deseja introduzi-las na alimentação, a dica é misturar as pétalas às saladas, por exemplo, ou utilizar algumas plantas no preparo de um sanduíche, ou mesmo de um omelete. “Tem muita gente que tem medo de comer flor! Para tirar esse preconceito, acho que vale começar a misturar pétalas de calêndula na salada com azeite”, diz Deborah. "É uma delícia", garante.

Flores comestíveis são uma boa opção para deixar pratos mais bonitos, saborosos e ricos em vitaminas
Divulgação/Arquivo Pessoal
Flores comestíveis são uma boa opção para deixar pratos mais bonitos, saborosos e ricos em vitaminas

O bacana é que a família inteira poderá ser beneficiada com os pratos mais coloridos e diversificados – até as crianças. Segundo a especialista consultada pelo iG , os pequenos costumam ficar bastante atraídos pelas cores chamativas. "Na minha casa, meus pratos são muito coloridos. Meus filhos não gostam muito de verduras, infelizmente. Alface, por exemplo, eles não comem. Mas as flores eles comem. Gostam muito de pétalas de calêndulas, também da cravina, que é adocicada, e da capuchinha, que é bem picante, tipo o agrião”, conta.

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Deborah ainda acrescenta que escreveu um livro, disponível em formato e-book, com várias dicas para utilizar flores comestíveis no dia a dia . Também, em seu canal no Youtube , é possível saber mais sobre o assunto – com dicas de como plantar as flores, como escolher, onde comprar e mais.

Receitas

Caso você queira começar a introduzir as flores na sua alimentação já, a especialista dá duas dicas de receitas deliciosas. Confira:

Salada com pétalas de cravinas

Alface lisa (baby)

Queijo branco amassado com leite em pó e água

Azeite extravirgem

Pétalas de cravina

Misture tudo e aproveite a salada leve e cheia de cor!

Arroz refogado com pétalas de calêndulas

8 flores de calêndulas

1 xícara de arroz orgânicos branco

sal a gosto

2 colheres de sopa de azeite

2 dentes de alho

Refogar alho com o azeite, colocar o arroz e as pétalas das 8 flores, jogar a água e deixar cozinhar. Pronto, teremos um delicioso arroz colorido e saboroso.

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