A volta ao lar

Parece que elas estão de volta! Ainda não são muitas, mas o movimento de volta ao lar cresce a cada dia. Mulheres que largaram a carreira estável para cuidar do home, sweet home. Outras, não largam o trabalho por nada, mas têm um apreço imenso pelas coisinhas domésticas. Conheça um pouco dessa tendência da busca pelo aconchego do lar

Glycia Emrich | 16/07/2008 16:20

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Foto: Getty Images

Trabalho, trabalho, trabalho. Há uma grande camada de mulheres que se dedicam exclusivamente às suas atividades profissionais. Depois de alguns séculos de luta pelo reconhecimento, por igualdade de direitos e pela diferenciação entre os sexos (sim, elas não são iguais aos homens), agora elas não têm medo de fazer o que querem. E se a escolha for ser dona de casa, qual o problema? Há as que gostam de coisinhas do lar e falam sobre isso com todo orgulho. Outras abandonaram a correria do dia-a-dia de trabalho para fazer com muito prazer aquela atividade que parecia ter ficado nos anos vividos pelas mães e avós: manter a casa em perfeita harmonia.

O trabalho trouxe novos problemas: competição, estresse, busca de perfeição, cansaço, injustiças. O que torna o mundo familiar mais atraente como o "refúgio" de tudo de negativo que existe no ambiente profissional. A casa passa a ser o lugar da proteção, do afeto, do amor, da realização como mulher, reflete a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro Toda Mulher é Meio Leila Diniz (Editora Record).

Plano B

A paulistana Ruth Mendes, 36 anos, dedicava horas do seu dia a uma multinacional. Desde que se formou em Comércio Exterior, aos 22 anos, a atual empresária vivia entre viagens e reuniões. O meu lar não tinha mais a minha cara. A empregada organizava tudo do jeito dela. Eu nunca tinha tempo para prestar atenção na rotina da casa, relembra Ruth. Após um estresse crônico, ela partiu para o plano B: abriu uma consultoria, organizou o próprio horário de trabalho e foi se dedicar à um prazer quase esquecido: cuidar das coisinhas de casa.

Agora eu faço minha comida, cuido das minhas roupas e até do meu jardim. Ganho menos dinheiro, mas tenho mais qualidade de vida que, para mim, é poder curtir as coisas simples. Não abro mão de ser a dona da minha casa, comemora a consultora.
 
Decidir entre ser uma excelente profissional e uma dedicada dona de casa é algo super atual. A principal diferença com relação às outras gerações é que hoje é uma escolha da mulher investir neste mundo do afeto e não uma obrigação social a ser desempenhada. A mulher de hoje tem muito mais escolhas e pode investir ou não no mundo familiar, ressalta a antropóloga.

Gosto sim, e daí?

A arquiteta Clara Romeno, 29 anos, fez a escolha dela e não se arrepende. Casada há quatro anos com um publicitário, sempre quis ser dona de casa. Dedicar-me em tempo integral ao lar era um desejo antigo. Mas todo mundo sempre dizia que era um absurdo, que eu tinha que estar no mercado de trabalho, desabafa Clara.

Quando soube da gravidez, não pensou duas vezes: largou o emprego e foi cuidar da família. Quando fiquei grávida, uni o útil ao agradável. Sem cobranças externas e por uma causa magnífica, parei de trabalhar e fui cuidar do meu filho e do meu marido, fala com orgulho. E quando o assunto é independência, ela responde no ato: Se eu perdi o meu espaço? Não. Aumentei. Quem manda lá em casa sou eu, responde às gargalhadas.

Rainhas do lar (porém, independentes!)

A moda pegou tanto que foi parar na internet. É o caso do site Rainhas do Lar, feito para aquelas que adoram cuidar do seu cantinho. Criado por Kátia Najara e Faby Zanelati, as duas com 37 anos, elas têm o maior orgulho de cuidar da casa. Somos rainhas do lar modernas que trabalham fora, mas adoram cozinhar, receber os amigos, cuidar da casa, da rotina, conta Kátia.

Ela é diretora de Espaços Culturais da Fundação Cultural do Estado da Bahia e ainda tem uma empresa de celebrações. Mesmo com muito trabalho, ela não dispensa uma casa em ordem. Saio de casa de manhã e passo o dia fora. E no final de semana é quando me jogo pra cozinhar pros amigos, ir ao supermercado, consertar aquele encanamento. Sou totalmente rainha do lar, gosto de cuidar de tudo, revela.

Trabalhar fora não impede que muitas mulheres sejam exímias gestoras do lar. Pelo contrário, isso é o que dá suporte para o resto: Para ter essa tranqüilidade de curtir minha casa, tenho que ter independência. Preciso de grana para comprar minha própria toalha de mesa, minhas flores, admite ela.

O resgate aos valores familiares e do lar retoma um questionamento já esquecido. A contemporaneidade, totalmente carente de valores sólidos que venham a dar contorno e reestabilizar as relações humanas, traz de volta esta questão: qual o papel da mulher na sociedade de hoje? O retorno ao lar é uma tentativa de resposta a esta pergunta, comenta Cristina Maria Magalhães, psicóloga formada pela PUC-SP e psicoterapeuta de orientação psicanalítica.

As dicas de Clarice Lispector

O livro Só Para Mulheres ¿ Conselhos, Receitas e Segredos (Ed. Rocco), organizado por Aparecida Maria Nunes, é uma coletânea de colunas femininas escritas por Clarice Lispector assinada com seus pseudônimos. Publicadas nos jornais Correio da Manhã, Diário da Noite e Comício, é um desenho da mulher brasileira dos anos 50 e 60. Soluções para pequenos problemas domésticos, questionamentos sobre a educação dos filhos, dicas de beleza, tudo encarado com o olhar indagador de Clarice.

Veja um trecho assinado por um de seus pseudônimos, Ilka Soares:
A beleza de uma casa está nos detalhes. Há donas de casa que têm o dom de criar cantinhos. É como se elas desdobrassem a própria personalidade e espalhassem graça. Olham uma parede vazia ¿ e daí a pouco a imaginação começa a trabalhar, a encher aquele trecho inexpressivo da casa. Em breve temos o que passa a ser um cantinho. Essa parede alegre, por exemplo, pode ser na cozinha, no banheiro, no quarto. Pode-se fazer uma parede viver ¿ sem usar quadros propriamente ditos. Objetos bem distribuídos também são pictóricos.

Aproveite a inspiração. E, se for o seu caso... já para casa, menina!

Leia mais sobre: casa

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG

Ver de novo