Jornalista brasileira lança nos EUA documentário sobre mulheres e crianças vítimas da Aids em Uganda

Há cinco anos em Ann Arbor, cidade do estado americano de Michigan, a jornalista Fernanda Pires orgulha-se por concluir seu mais audacioso trabalho, o documentário “Unbreakable Chain: The Effects of HIV on Families” – traduzido como “Corrente Inquebrável: Os Efeitos do HIV nas Famílias”.

Nascida em Campinas e formada pela UNESP, de Bauru, Fernanda trabalhou na EPTV, emissora afiliada à Rede Globo de Televisão e conduziu, sozinha, roteiro, produção, entrevistas e edição do filme em que mostra, com detalhes, a triste realidade das famílias atingidas pela Aids - doença que já deixou 14 milhões de crianças e adolescentes órfãos no país africano.

Sem previsão de estreia no Brasil, o filme já tem obtido notoriedade internacional - a rede Michigan Television transmitiu no começo do mês, e a PBS pretende veiculá-lo por todos os Estados Unidos. “Quero contar esta linda e triste história ao maior número de pessoas possível”, diz a jornalista, que falou de sua experiência inesquecível ao Delas .

O que a levou à realização deste trabalho?
Fernanda Pires -
A ideia de fazer o documentário surgiu depois que conheci Naomi Corera, diretora da fundação Children Waiting Everywhere, que ajuda crianças de Uganda e do Quênia. Desde que a conheci, há quatro anos, fiquei apaixonada por seu trabalho e queria vivenciar um pouco desta experiência. Decidi, em vez de escrever uma tese de conclusão do meu mestrado, na Michigan State University, fazer um documentário. Fui para Uganda com ela, onde fiquei quase duas semanas.

O que mais a impressionou nesta experiência?
Fernanda Pires -
Sempre quis ser jornalista e posso dizer que, em 12 anos de profissão, já entrevistei muita gente. Constatei que o que mais me fascina no jornalismo é a possibilidade de estar em contato com pessoas diferentes, de diversas culturas e classes sociais, e de me tornar uma pessoa melhor depois de cada notícia. E em Uganda, aprendi que podemos ser felizes, independente do que temos. O povo de Uganda é assim. Mesmo com todos os problemas, como HIV, malária, tuberculose, falta de saneamento e eletricidade, sempre encontra uma forma de ser feliz.

O que determinou a escolha das personagens?
Fernanda Pires -
Como li muito antes de ir e conversei com pessoas de Uganda que vivem em Ann Arbor, tive uma orientação para procurar por alguns personagens e encontrei as três crianças e duas senhoras que estão no meu filme. Viajei com Naomi de Detroit/Michigan para Kampala/Uganda. Ficamos lá durante duas semanas, em julho de 2007.

Como foi a produção do filme?
Fernanda Pires -
Muito trabalhosa, porque fiz tudo sozinha. Fui produtora, repórter, cinegrafista – graças à câmera semiprofissional emprestada de uma amiga – e editei o filme no meu laptop. Mas tive muito prazer e aprendi bastante durante todo esse processo. Na fase final, o diretor de produção da PBS, Chris McElroy, fez a finalização comigo e me ajudou bastante nessa fase de pós-produção. Eu precisava de uma outra cabeça. Sofri, mas aprendi bastante e estou muito feliz com o resultado.

Quais são as condições de vida da população local?
Fernanda Pires -
De uma forma geral, a situação do povo de Uganda é bem precária, com graves problemas de saúde, principalmente por conta da Aids e Malária. Segundo a UNESCO, a expectativa de vida é de 51 anos. 73% dos adultos e 86% dos jovens são alfabetizados. Uganda tem quase 32 milhões de habitantes, sendo que 6% da população adulta tem o vírus HIV. Entre as mulheres, 7,5% estão infectadas. Entre os homens, essa porcentagem cai para 5%. Não há um número oficial sobre crianças. De acordo com a Uganda HIV and AIDS Sero-Behavioural Survey, o número de pessoas infectadas é de 10% na área urbana, quase o dobro das áreas rurais.

Há recursos na área médica para atender aos portadores?
Fernanda Pires -
As condições não são nada boas. Falta água, eletricidade e saneamento básico são precários. Quem vive em Kampala, na capital, consegue acesso aos medicamentos gratuitos. Mas, nas áreas rurais, quem tem o vírus tem de se virar para comprar.

O que os órgãos internacionais, como a ONU e a OMS, têm feito para enfrentar o problema?
Fernanda Pires -
Infelizmente, há muita corrupção em Uganda e a ajuda que chega ao país é extraviada, inclusive a verba dos medicamentos anti-Aids. Muito precisa ser feito. E a população não tem educação suficiente pra lutar por seus direitos.

Na sua opinião, qual o futuro de Uganda?
Fernanda Pires -
Só a educação pode mudar a realidade. O número de novos infectados caiu de 25% para 6%, desde 1990, graças a uma campanha forte que realmente chama a atenção por lá. É a ABC Campaign: A é para ‘abstain’ (abstenha-se), B significa ‘be faithful’ (seja fiel) e C, ‘use condoms’ (use preservativos). Só a educação vai quebrar esta corrente que, por hora, é inquebrável. A corrupção também precisa ser eliminada. Só não sei como e quando isso vai acontecer.

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