Maria da Penha fala sobre violencia domestica e conta como virou um exemplo para outras mulheres

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A historia de luta de Maria da Penha Maia Fernandes comecou em 1983, quando, em uma simulac?o de assalto, um tiro ? disparado pelo proprio marido, Marco Antonio Heredia Viveros ? atingiu suas costas e a deixou paraplegica. Apos sair do hospital, sofreu nova tentativa de assassinato, dessa vez por meio de eletrocuss?o. Foi ent?o que Viveiros foi desmascarado.

Foram 15 anos para colocar o seu agressor na cadeia, mas, devido a recursos, ele foi solto. Maria da Penha teve de buscar ajuda da justica internacional. E foi ent?o que a OEA (Organizac?o dos Estados Americanos) condenou o pais pela omiss?o e impunidade com que tratava os casos de violencia, sugeriu que se criasse uma lei que os coibisse e pediu uma indenizac?o.

Somente em 2002, depois de passados 19 anos do atentado, o agressor foi condenado. Em 2006, foi criada uma Lei, de numero 11.340, que ganhou o seu nome. Ela e biofarmaceutica com mestrado pela USP, vice-coordenadora da APAVV (Associac?o de Parentes e Amigos de Vitimas da Violencia) e faz quest?o de expor a sua historia na intenc?o de ajudar centenas de mulheres que sofrem de violencia domestica.

Agora, em 2008, o governo do Ceara anunciou que pagara uma indenizac?o a Maria da Penha. Confira a conversa que tivemos com essa incrivel mulher:

A que voce atribui essa demora na justica?
Penso que a unica ac?o que a Justica trabalha com rapidez e aquela que trata do aumento salarial dos servidores do alto escal?o, ou ainda aquela em que o cidad?o comum tem no Estado ou nas grandes empresas a negac?o dos seus direitos.

Com o fato de receber a indenizac?o, voce sente que a justica foi feita?
Na verdade, gosto muito de citar uma frase de Rui Barbosa que diz Justica tardia n?o e justica, mas injustica qualificada. Esperei 20 anos para que a justica chegasse, com muita luta e muito sofrimento. Porem, essa luta ja desencadeou tantas ac?es positivas que hoje me sinto recompensada.

Voce ve mudanca na justica brasileira em relac?o as mulheres depois da criac?o da Lei 11.340 - nomeada Lei Maria da Penha, em 2006?
A sans?o da Lei Maria da Penha representa a carta de alforria da mulher brasileira subjugada por anos a fio a uma vida de violencia domestica, dor, sofrimento e preconceito. Agora contamos com uma lei que veio consolidar a garantia dos Direitos Humanos das mulheres ate ent?o violadas diante do total descaso do Estado.

Na cidade de Fortaleza, conforme estatisticas apresentadas pela Delegacia da Mulher houve um aumento de 45% nas denuncias. Agora as mulheres tem denunciado mais por acreditarem na Lei e nas instituic?es. Tambem existe uma estatistica recente do maior hospital de atendimento publico do Ceara, Instituto Doutor Jose Frota (Frot?o) onde foi constatada uma reduc?o nos casos de atendimento de mulheres vitimas de violencia domestica.

Alem da lei, o que mais e preciso existir para coibir a violencia contra as mulheres?
A Lei por si so n?o acaba com a violencia domestica contra a mulher, precisamos aos poucos mudar a cultura machista e patriarcal do nosso pais. E necessario, portanto, lutar para que cada cidade tenha os equipamentos sociais que atendam a Lei, como: Delegacia da Mulher, Casa Abrigo, Centro de Referencia da Mulher, Juizado de Violencia Domestica e Familiar contra a Mulher e as equipes multidisciplinares. So assim a mulher se sentira respaldada para sair do medo e da opress?o e procurar ajuda.

Fale um pouco sobre a APAVV (Associac?o de Parentes e Amigos de Vitimas da Violencia), como e o dia-a-dia da instituic?o?
Na APAVV, a acolhida dada aos parentes de vitimas de violencia acontece de maneira diferente pelo fato de a maioria dos seus membros terem sentido na propria pele as dores da violencia e da falta da justica. Esse acolhimento, realizado nos ultimos sabados de cada mes em local publico, tem contribuido para uma luta coletiva em prol de uma cultura de paz.

O que passa na cabeca das mulheres quando s?o agredidas e por que muitas optam pela omiss?o?
Passa por um misto de sentimentos. Primeiro vem a decepc?o, a revolta de estar passando por uma situac?o dessas e o fato de n?o denunciar muitas vezes esta ligado a falta de condic?o financeira para criar os filhos, a vergonha de se expor e expor sua familia. Porem, eu acho que hoje essas mulheres n?o sofrem mais caladas, so se n?o conhecerem a Lei.

Toda e qualquer forma de violencia deve ser denunciada, porque nos temos o direito a uma vida digna, livre da violencia, e para isso precisamos lutar para que cada cidade tenha sua delegacia da mulher, casa abrigo, centro de referencia, juizado de violencia domestica, pois assim a mulher se sentira respaldada para sair do medo e da opress?o e procurar ajuda.

Neste ano, comemora-se 40 anos da emancipac?o feminina ? do advento da pilula anticoncepcional, do uso da minissaia etc. O que voce acha que mudou nesse tempo e o que continua igual na postura das mulheres? Voce acredita que nos somos realmente livres?
Acho que isso e muito mais uma quest?o de cultura do que de conduta. Temos arraigado em nossas consciencias que mulher deve estar sempre por tras dos acontecimentos. Ela cuida da casa e dos filhos e a vida publica pertence ao homem. Esses conceitos precisam de muitos anos para serem alterados. Ja conseguimos muita coisa. Ja conseguimos uma Lei que nos permite ter um ambiente familiar saudavel. A mudanca nas consciencias, essa, sim, precisa de mais tempo.

Na sua opini?o, quem s?o as grandes mulheres da atualidade?
S?o muitas as mulheres que deram exemplo de vida. Em todas as areas encontramos aquelas que est?o fazendo a historia e aquelas que fizeram e est?o sendo resgatadas pelas mulheres da atualidade.

Voce tem planos para entrar na politica?
Acho que meu papel social ja estou cumprindo, pois antes de qualquer cargo, sou uma agente de direitos humanos e militante da causa da mulher. Nisso se constitui meu trabalho. Penso que n?o e necessario um cargo eletivo para levar a frente minha luta e meus projetos pela causa da mulher.

Acho que um cargo politico me engessaria e eu n?o poderia atuar com a mesma liberdade que o faco hoje: falando o que penso, apoiando causas independentes do partido politico, ou seja, o que me interessa e a essencia e n?o a vestimenta de quem luta por uma causa coletiva.

De onde vem toda a forca de Maria da Penha?
A minha forca vem de Deus, que sempre esteve comigo e nunca me deixou desistir. Vem da alegria e reconhecimento das pessoas, beneficiadas ou n?o com as mudancas desse momento. Tambem conto muito com o apoio de minha familia e meus amigos e o desejo de construir uma sociedade melhor, de paz entre homens e mulheres, tambem me impulsiona a seguir em frente.


www.mariadapenha11340.com.br
APAVV http://www.apavv.org.br/


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